Meio Ambiente

TRANSGÊNICOS: EM BUSCA DO BOM SENSO

Em 1997, por ocasião de reunião que realizamos na França, em companhia de um grupo de dirigentes de cooperativas gaúchas, recebemos a proposta de produzir e comercializar, para algumas empresas francesas, a soja não-transgênica. Na oportunidade, diante do avanço dos produtos OGM, e especialmente da soja, algumas regiões e empresas francesas passaram a se interessar pelo chamado produto convencional, na tentativa de estabelecer um mercado diferenciado e, com isto, se destacar no comércio de produtos agroalimentícios finais aos seus consumidores. Naquela ocasião, cálculos realizados pelos representantes de nossas cooperativas, para garantir uma linha de produção e comercialização totalmente livre da soja OGM, desde a produção da semente até o descarregamento do navio na França, indicavam ser necessário um preço 30% acima da referência mundial, isto é, da Bolsa de Chicago. As conversações terminaram praticamente ali mesmo. De lá para cá, que evolução encontramos neste mercado?

Em primeiro lugar, o mundo todo produz e desenvolve alimentos transgênicos, consumindo-os em larga escala e há muito tempo. No entanto, em torno da soja a polêmica continua. Mesmo assim, os maiores produtores de soja do mundo plantam a soja transgênica (a Argentina em torno de 100%, os EUA ao redor de 80%, a China igualmente etc…). Apenas o Brasil, por questões jurídicas, impetradas por defensores dos consumidores, e por questões políticas (alguns representantes de nossa chamada esquerda radical, apoiados por algumas ONGs estrangeiras e nacionais), continuou proibindo o plantio dos transgênicos, evitando regulamentar a situação dos mesmos à luz dos fatos presentes, apesar das tentativas do governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Em segundo lugar, diante da confirmação de uma grande maioria de entidades científicas mundiais, inclusive a Organização Mundial da Saúde, de que o produto transgênico, e especialmente a soja, não provocam problemas à saúde humana e animal, o mundo passou a consumi-lo sem grandes distinções. A tal ponto que todos os laboratórios e centros de pesquisa do mundo, especialmente os europeus e particularmente os franceses, desenvolvem amplos estudos na área, inclusive com aplicações práticas em vários campos. Neste sentido, o processo já não é mais domínio desta ou daquela multinacional. Tanto é verdade que, apesar dos atos de vandalismo (apoiados por determinadas facções políticas nacionais e estrangeiras), a maior empresa oficial de pesquisa agropecuária do Brasil, a EMBRAPA, possui uma série de experimentos transgênicos comprovados e prontos para irem a campo. Em terceiro lugar, os produtores brasileiros, a começar pelos gaúchos, diante da negativa dos consumidores europeus em pagarem um preço compensador pelo produto convencional, e diante dos altos custos de produção que estavam praticamente inviabilizando economicamente o meio rural, passaram a plantar soja transgênica há mais de cinco anos, reproduzindo a própria semente, com um crescente aumento na área semeada. Afinal, está comprovado que o produto transgênico permite um ganho de rentabilidade interessante, pois reduz, dentre outras coisas, os custos de produção. Em quarto lugar, o produto convencional se estabeleceu como um nicho de mercado junto ao consumidor mundial, pois não são muitos os que podem pagar por alimentos mais caros por serem específicos, mesmo junto aos países desenvolvidos (isto explica porque os europeus não desejam pagar um “plus” ao produto convencional). Em quinto lugar, a ciência e a economia é que deveriam ter a palavra final sobre a questão. No primeiro caso, ninguém conseguiu provar nada que desabone os produtos transgênicos, muito menos a soja. É evidente que determinados cuidados no plantio e no tratamento do produto devem existir, mas nada que impeça o seu desenvolvimento em larga escala. No segundo caso, o econômico atropelou a lei e, especialmente, a política, as vezes mal informada ou, talvez, com outras intenções, pois a serviço de interesses protecionistas e imperialistas, para usar o termo comum desta linha de pensamento, que estão, com apoio de muitas ONGs travestidas de sentimentos humanitários, tentando impedir o desenvolvimento da biotecnologia no Brasil, atrasando-nos perante as principais nações do mundo e, com isto, tornando-nos potencialmente ainda mais dependentes. Enfim, é preciso termos bom senso na solução desta questão. Não podemos ficar fora da corrida tecnológica, e a biotecnologia é a segunda grande revolução verde no mundo. Ao mesmo tempo necessitamos de um rígido controle sobre as atividades de plantio e desenvolvimento dos produtos transgênicos.

TRANSGÊNICOS

TRANSGÊNICOS

Na prática, existe mercado para todos os tipos de produto, porém, insistir em fazer produtos convencionais, à base de agrotóxicos, que custam mais caro e são mais poluentes, além de nocivos à saúde humana, sem receber um preço condizente no mercado externo, como a realidade nos mostra, é um atestado de incompetência de nossa parte. Desta forma, a lei, a ser redefinida com urgência, deve levar em conta o conjunto dos fatos e oferecer a oportunidade de escolha ao meio rural. Ou seja, aqueles que desejarem plantar transgênicos, que o façam, e aqueles que julgarem ser mais interessante o produto convencional e o orgânico, que o façam igualmente. Isto permitirá que nossa ciência e nossa geração de riquezas cresça muito mais junto ao agronegócio, pois não estaremos mais à mercê, por um lado, de entidades com intenções pouco transparentes, e, por outro lado, de ações ilegais, do tipo contrabandear sementes de países vizinhos, sem as mesmas estarem adaptadas ao nosso solo e clima, fato que nos faz deixar de ganhar uma renda que é absolutamente indispensável à sobrevivência e desenvolvimento do setor primário, particularmente da pequena e média produção familiar do Rio Grande do Sul. Para se ter uma idéia, se efetivamente o Estado gaúcho tem hoje 70% de sua safra de soja em transgenia, isto representa 5,6 milhões de toneladas daquilo que está sendo previsto ou, a preços de hoje, aproximadamente US$ 1,05 bilhão. Se somarmos o que o país inteiro tem plantado com soja transgênica, temos a noção exata da dimensão econômica do fato, com suas naturais conseqüências sociais. O bom senso, portanto, deve superar definitivamente os radicalismos, a desinformação e as intenções duvidosas, sob pena de quebrarmos o setor primário nacional e particularmente o gaúcho.

Argemiro Luís Brum

Sobre o autor | Website

Meu nome é Vagner Liberato, sou carioca e vivo no Rio de Janeiro. Formei-me em Administração de Empresas e sou um apaixonado por conteúdo sustentável. Desde 2015 faço o Meio Ambiente Rio com maior prazer! Para falar comigo, entre em contato pelo email: contato@meioambienterio.com

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