Meio Ambiente

Nature Plants: “Procuramos os ‘papers’ que vão mudar o mundo”

Editores científicos buscam trabalhos que tragam novidade, sejam tecnicamente inteligentes, tenham possibilidade de se conectarem a outras áreas e possível aplicação prática. Esses seriam, segundo o editor-chefe do periódico Nature Plants, Christopher Surridge, as publicações científicas (ou papers) que poderiam mudar o mundo.

Essas e outras dicas foram apresentadas por Surridge na manhã do dia 4 de novembro, na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, durante a palestra “O papel dos periódicos de alto impacto e como publicar neles”. A visita, organizada em parceria com a Embrapa Informação Tecnológica (SCT), atraiu o interesse de cerca de 70 pesquisadores.

Na opinião de Surridge, os cientistas devem comunicar a outras pessoas o que fazem, caso contrário estarão fazendo metade do trabalho. As publicações, entretanto, devem ter no máximo três pontos principais. “Publicações científicas não são livros e, portanto, não precisam descrever uma vida de trabalho. Alguém consegue se lembrar de dez coisas citadas num paper?”, questionou. Segundo o editor, é preciso sempre ter em mente quem vão ser os leitores do trabalho.

Durante a apresentação, Surridge elencou o que costuma ser lido nos artigos científicos: o resumo, as conclusões e as figuras.  E enfatizou a importância deste último item: “A história que você quer relatar pode ser contada por meio de cinco ou seis figuras. Antes de escolhê-las, imagine-se contando a história por meio das figuras”, sugeriu. Segundo o editor, as figuras não precisam estar necessariamente na ordem dos experimentos, mas sim na ordem em que a história deve ser contada. “Quando não entendemos as figuras é que voltamos e então lemos o paper”, afirmou.

Foto: Claudio Bezerra

Claudio Bezerra - Editor da Nature Plants deu dicas de como publicar artigos científicos em revistas de alto impacto

Editor da Nature Plants deu dicas de como publicar artigos científicos em revistas de alto impacto

Outra questão importante destacada pelo editor da Nature Plants é a escolha da linguagem a ser utilizada no paper. “Eu não ligo para a linguagem rebuscada, o inglês utilizado deve ser o inglês claro e conciso. Não estamos escrevendo romances ou poemas, então não ligue muito para isso”.

A escolha das referências

“Você tem que mostrar que o seu paper é interessante e que outros cientistas vão querer tê-lo como referência”, afirmou Chris Surridge. O editor disse que gosta de receber sugestões de referências as quais o pesquisador gostaria que comentassem o seu trabalho e também referências que não deveriam comentá-lo. “Estamos sempre buscando novas referências para utilizar”, disse.

Usualmente, segundo Surridge, os trabalhos científicos são enviados para três referências, que recomendam ou não a publicação. “Sempre agradeça as referências, eles estão tentando te ajudar, mesmo que não recomendem a publicação do seu trabalho”, comentou Surridge.

Surridge afirmou não se importar com a origem ou a fonte financiadora da pesquisa ao avaliar um trabalho. Fatores de impacto também não são levados em consideração. “Eles falam de trabalhos publicados no passado, não nos dizem muito sobre o presente”, argumentou. Ao contrário, trabalhos com algum destaque dado pela imprensa podem, segundo ele, influenciar os editores de periódicos científicos.

Cartas de apresentação e “Piece Machine Imprimerie”

Cartas de apresentação devem ser curtas (com no máximo duas páginas) e “excitar” o editor, disse Surridge. “Imagine-se trancado numa sala com o editor por 10 minutos. Ele vai querer saber sobre as suas conclusões, porque você acha o seu trabalho importante ou o que ele tem de especial, qual é o último ganho e o contexto histórico”, exemplificou.

O editor afirmou ainda que, mesmo antes de submeter trabalhos científicos, é perfeitamente possível escrever cartas curtas comentando sobre um trabalho em específico e perguntando em que momento a revista gostaria de publicá-lo. Esse tipo de documento é comumente chamado de “Piece Machine Imprimerie”.

Open Access x Open data

Chris Surridge lembrou que a Nature não cobra dos cientistas para publicar os trabalhos científicos, mas, por outro lado, também não pode ser “open access”, ou seja, de acesso aberto. “Acho que todo mundo deveria poder ler os papers de um jornal científico, mas se não cobrarmos as pessoas teremos que cobrar os autores. Ainda não encontramos um modelo de negócio que nos permita oferecer o acesso aberto”, afirmou.

Já em relação ao “open data”, ou compartilhamento dos dados científicos, o editor ressaltou que, neste caso, os dados devem ser abertos. “E justamente para que mais pessoas possam utilizar as informações científicas é que temos o jornal ‘Scientific Data’. Dados que não são compartilhados não tem utilidade”, afirmou.

Assuntos de interesse da Nature Plants

Após a palestra, Chris Surridge conversou com alguns pesquisadores da área de plantas para saber mais sobre os desenvolvimentos, tendências e trabalhos realizados no Brasil. O editor destacou três assuntos sobre os quais gostaria de receber paper científicos brasileiros: cana-de-açúcar, mandioca e capim. Pesquisas com patógenos tropicais e pesquisas translacionais, ou seja, que tem seu início na ciência básica e sua conclusão na aplicação prática do conhecimento apreendido, também foram citadas como sendo de grande interesse para o periódico Nature Plants.

Em relação às pesquisas com Organismos Geneticamente Modificados, Surridge afirmou que os editores são, em geral, a favor. “Entendemos que os OGMs são apenas ferramentas que podem ser boas ou ruins dependendo de como forem usadas”, esclareceu. “Mostre-me as evidências. Isso é tudo o que queremos”, concluiu.

Sobre o periódico Nature e a Nature Plants

A Nature é das mais antigas revistas científicas do mundo: sua primeira edição é de 4 de novembro de 1869. De origem britânica, a revista afirma que possui um público online de cerca de três milhões de leitores por mês e foi classificada como a revista científica mais citada do mundo pela edição de 2010 do Journal Citation Reports.

A circulação semanal é de 53 mil exemplares, mas estudos concluíram que, em média, uma única cópia é compartilhada por até oito pessoas. É também considerada como uma das poucas revistas acadêmicas que publica pesquisas originais em uma ampla gama de campos científicos. Entre as inúmeras descobertas científicas publicadas na Nature estão a dos raios X, da estrutura em dupla hélice do ADN e o buraco na camada de ozônio.

A Nature Plants é uma das revistas do grupo Nature, lançada em janeiro de 2015 para se dedicar exclusivamente ao estudo de plantas: evolução, desenvolvimento ou metabolismo; interações com o meio ambiente e importância social; fitotecnia básica e aplicada e áreas de pesquisa translacional.

Em fevereiro deste ano, a editora Macmillan, proprietária das revistas Nature e Scientific American, uniu-se à editora alemã Springer. Levando-se em conta o número de artigos publicados, a nova empresa originada da fusão ficou responsável por 13% do mercado, atrás apenas da editora Elsevier, que detém 23% do total de artigos científicos em circulação no mundo.

Irene Santana (MTb 11.354/DF)
Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia

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Vagner Liberato

Meu nome é Vagner Liberato, sou carioca e vivo no Rio de Janeiro. Formei-me em Administração de Empresas e sou um apaixonado por conteúdo sustentável. Desde 2015 faço o Jornal Sustentabilidade com maior prazer! Para falar comigo, entre em contato pelo email: contato@meioambienterio.com

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