Meio Ambiente

O Cultivo de óleo de palma pode ser sustentável?

* por Marcello Brito

Em 23 de junho a sucursal de Belém do portal G1publicou uma matéria intitulada “Plantio de dendê gera perda de habitat de aves, diz Museu Goeldi”, baseado no artigo e pesquisa liderado pelo pesquisador Dr. Alexander Lees. O mesmo diz: “Monoculturas de plantações de dendezeiros foram identificados como uma ameaça emergente para a biodiversidade da Amazônia, mas não existem estudos quantitativos que exploram o impacto dessas plantações. Entender esses impactos é extremamente importante, dada a rápida expansão projetada de cultivo de óleo de palma na região”.

É justamente em razão dessa última constatação que fazemos alguns questionamentos. Em primeiro lugar, comparar florestas, mesmo que secundárias com qualquer tipo de plantio comercial em termos de biodiversidade é dispensável. Não há plantio agrícola sem impacto ambiental e que não provoque significativas perdas em biodiversidade quando comparadas a florestas, ponto final, não há discussão sob o tema.

Então, qual deveria ser a questão aqui? O ser humano ainda não foi feito para se alimentar de comida sintética. Hoje, 98% de tudo que comemos vem direta ou indiretamente da agricultura, cerca de 1,5 bilhões de pessoas tiram seu sustento dessa atividade para alimentar os outros 5,5 bilhões de habitantes da terra em 2015.

Nos resta então encontrar quais são os modelos de desenvolvimento econômico que mitiguem os impactos do desenvolvimento socioeconômico na produção de alimentos e fibras. No que tange especificamente a cultura da palma, objeto desse estudo do Museu Emílio Goeldi no estado do Pará, talvez um bom exemplo seja o que vem sendo executado pela empresa Agropalma S.A. Esta iniciou seus plantios no estado do Pará em 1982, da mesma forma que qualquer outro investimento da época, substituindo florestas por plantios comerciais. Foram 20.000 hectares de florestas desmatados até o ano de 2000. O que a diferenciou da grande maioria dos outros investidores na Amazonia nas décadas de 70, 80 e 90 foi que a empresa manteve os 50% de reserva legal exigidos pela lei.

A partir de 2001 a empresa assumiu um compromisso público de desmatamento zero, e desde então outros 20.000 hectares de plantios foram feitos em substituição a áreas degradadas, abandonadas ou pastos. Como no decorrer desse período a lei de 50% obrigatórios de reserva legal passou para 80% e depois retornou aos mesmos 50%, o mosaico de terras da Agropalma hoje corresponde a 40.000 hectares de plantios (37%), 64.000 de reservas florestais (60%) e 3.000 hectares de área de infraestrutura, principalmente estradas (3%).

A partir de 2004, a Agropalma deu início a um trabalho voltado para a identificação e monitoramento de fauna em suas áreas, todas contíguas. O escopo era identificar qual o impacto na biodiversidade dessas reservas florestais pelo fato da vizinhança com um plantio de palma. Veja que em nenhum momento a empresa quis comparar a biodiversidade das reservas florestais com as áreas de plantios, por julgar isso inútil. Já se sabia que os plantios seriam no máximo um caminho de acesso entre uma floresta e outra.

No rápido resumo de todas as avaliações de campo com “Pássaros” realizadas em fazendas da Agropalma, destacamos que o Dr. Luis Silveira, ornitologista e professor da Universidade de São Paulo, foi o responsável pelo trabalho das duas primeiras avaliações (2004 e 2006). Dr. Silveira registrou 340 espécies de aves (algumas ameaçadas de extinção) e forneceu para a empresa os primeiros dados confiáveis ​​sobre a biodiversidade em suas próprias reservas florestais.

Em 2007, a Agropalma iniciou uma parceria com a ONG Conservação Internacional, que enviou a Dra. Renata Valente, ornitologista, para executar a terceira avaliação de pássaros. Ela registrou 165 espécies. Em 2008, o Dr. José Fernando Pacheco, membro do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO), realizou um estudo de aves em terras da Agropalma, como parte do Estudo de Impacto Ambiental da Ferrovia Norte-Sul. Dr. Pacheco e sua equipe descobriram 286 espécies. Em 2010, Dr. Fabio Olmos, também membro do CRBO, executou campanha de campo e registrou outras 95 aves diferentes.

Em 2012 e 2013, a Conservação Internacional enviou Dr. Marcos Pérsio Santos, ornitólogo e professor da Universidade Federal do Pará. Ele e sua equipe avaliaram as reservas florestais e áreas dentro das plantações de dendezeiros. Foram registradas 295 espécies de aves. O Dr. Santos também compilou todas as listas de aves registradas pelas pesquisas anteriores. Ele concluiu que 449 espécies diferentes de aves já foram encontradas em terras da Agropalma. Muitos deles são exclusivos do Centro de Endemismo de Belém e 12 estão ameaçadas em algum grau.

Todas as campanhas de campo utilizaram métodos semelhantes para registrar os pássaros, como identificação visual, identificação por meio de vocalização de aves e redes ornitológicas instaladas em pontos estratégicos, ou seja, métodos rigorosamente científicos. Em alguns casos, anéis de identificação foram colocados em aves.

As avaliações da biodiversidade realizados em terras da Agropalma demonstra que a empresa desempenha um papel fundamental na conservação de espécies de aves (incluindo endêmicas e ameaçadas). Esse programa de controle e preservação da biodiversidade também se estende a mamíferos, répteis, anfíbios e insetos, incluindo aqueles da biota aquática.

óleo de Palma

óleo de Palma

É muito importante dizer que estas reservas florestais são vizinhas às plantações de dendezeiros da Agropalma nos últimos 32 anos. Isso prova que, sob certas condições, é possível mitigar os impactos sobre a biodiversidade ao mesmo tempo em que se promove o desenvolvimento social e econômico de uma região. Como disse em recente artigo, José Graziano da Silva, diretor geral das Organizações das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, “vivemos uma transição de ciclo econômico. A correlação entre as escolhas do desenvolvimento e o manejo sustentável dos recursos naturais incorporou-se à pauta das nações. O tempo das constatações ficou para trás. Alarmes econômicos e ambientais já cumpriram seu papel: chegou a hora de ajustar os ponteiros da cooperação para uma ação transformadora”, ou seja, não é mais “o que” ou “e se” produzir, mas muito mais “como produzir”.

Este é o “x” da questão. Não se trata de questionar se a área de produção de alimentos e fibras no mundo irá aumentar, pois com certeza irá com o crescimento populacional. Nossa obrigação, como seres pensadores e responsáveis pelo mundo em que vivemos é estabelecer um modelo de desenvolvimento combinando economia e ecologia. O tempo de negação da harmonia entre as duas há muito se foi da mente dos que pensam no futuro do planeta.

* Marcello Brito é presidente da ABRAPALMA – Associação Brasileira dos Produtores de Óleo de Palma, diretor da ABAG – Associação Brasileira do Agronegócio e diretor comercial & sustentabilidade da Agropalma.

Sobre o autor | Website

Meu nome é Vagner Liberato, sou carioca e vivo no Rio de Janeiro. Formei-me em Administração de Empresas e sou um apaixonado por conteúdo sustentável. Desde 2015 faço o Meio Ambiente Rio com maior prazer! Para falar comigo, entre em contato pelo email: contato@meioambienterio.com

Para enviar seu comentário, preencha os campos abaixo:

Deixe uma resposta

*

Seja o primeiro a comentar!

Por gentileza, se deseja alterar o arquivo do rodapé,
entre em contato com o suporte.