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Vamos falar sobre existir?

A inevitabilidade da morte tira o ser-aí da inércia, concedendo novo significado à sua vida e o tornando apto a viver autenticamente.

“Não sei se a vida é pouco ou demais par mim.

Não sei se sinto demais ou de menos, não sei

Se me falta escrúpulo espiritual, ponto de apoio na inteligência,

Consanguinidade com o mistério das coisas, choque

Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,

Ou se há outra significação para isso mais cômoda e feliz.”

Os versos acima são de Álvaro de Campos, heterônimo do poeta lusitano Fernando Pessoa, em Passagem das horas. No poema, o eu lírico reflete acerca de sua existência, sua vida, sentimentos, capacidades, ações e pensamentos. De certo modo nos leva a uma questão um pouco mais profunda no abismo submerso que chamamos de realidade: estamos vivendo ou apenas existindo?

Eu sei, parece conversa de livro de autoajuda, mas é bem mais. Digo isso, pois existir já é muito para quem, como eu, não veio com um manual de instruções a tiracolo para predeterminar suas funcionalidades, aptidões, deveres e procedimentos.

O filósofo Jean-Paul Sartre possui uma máxima que me instiga, alegra e, algumas vezes me apavora. De verdade. “A existência precede a essência”. Essa curta frase se insere em um modelo filosófico chamado de existencialismo, que, em última instância tenta compreender as vicissitudes da existência humana.

É claro que o conteúdo existencialista não pode ser muito reduzido, sob o risco de descaracterizarmos tamanho conhecimento mas, em linha gerais, podemos apontar duas linhas de pensamento existencialista bastante interessantes: o cristão, no qual se destaca Kierkegaard; e o ateu, representado por Heidegger (embora ele mesmo não o considere) e o próprio Sartre. Tanto uma corrente como a outra, possuem em comum um princípio fundamental: a existência.

Por exemplo, Kierkegaard aponta a existência de cada indivíduo como marcada pelo contingente, ou seja, suas ações podem leva-lo para esta ou aquela situação, o que pode gerar benefício ou malefício. A existência humana dependeria de um universo de possibilidades, onde o acaso levaria a fortuna (com um sentido de bem) ou a miséria e o terrível, que sempre espreitariam ávidos por trás de cada passo dado, ou hálito vital exalado pelos pulmões. O bem e o mal estão sempre à disposição.

Já o alemão Martin Heidegger parte do princípio que, para entender alguém, é preciso entender sua relação com o mundo, pois somos todos seres no mundo. Nossa existência estaria baseada nas interações que realizamos, pois nos construiríamos através dessa relação com o outro. Heidegger cunhou o termo dasein para explicitar tal relação. Dasein significa ser-aí, ser-aí no mundo com tudo e todos ao redor.

É aí que as coisas se complicam bastante, pois podemos “estar sendo” (perdoem-me, detesto gerundismos) de modo inautêntico na visão de Heidegger. Mas como existir de modo inautêntico? Simples, é só viver no factual apenas, manipulando outros e se relacionando de modo superficial, reproduzindo tudo o que outros fazem e dizem sem refletir, seguindo normas e padrões sociais impostos a você. Acredite, não é fácil. Digo isso, pois existir de maneira inautêntica é muito cômodo e evita rugas.

Uma existência inautêntica nos coloca no padrão. Onde não somos julgados, onde nada pode nos servir de crítica, onde somos apenas a estática em uma tela, continuamente reproduzindo algo amorfo, anômico e sem esperança de transmutação em algo melhor, mais belo e dotado de um sentido superiormente mais significativo para nós mesmos e para todos os outros que desejem mais da vida.

Há de se notar, todavia, que existe esperança. Se há uma existência considerada inautêntica, é por que existe uma existência considerada autêntica. A questão é: como alcança-la? A resposta está em um tremendo esforço.

O processo de ruptura com a existência inautêntica é conhecido como angústia. Calma, não é o mero estado de inquietude, ansiedade, sofrimento e tormento somados em um momento, é muito mais um agir vital, como quando uma borboleta precisa romper com a segurança do casulo para viver de fato e levar sua existência ao objetivo final, é algo doloroso, mas fundamental para a sobrevivência. A angústia a que Heidegger se refere nasce quando o ser humano assume a responsabilidade sobre sua própria vida, sem se perder em coisas mundanas e ocupações próprias do cotidiano.

Desse modo, o que torna a angústia uma experiência tão perturbadora, é a consciência de nossa finitude, ou seja, todos nós, mais cedo ou mais tarde vamos morrer. Todos os homens devem morrer e, essa terrível certeza é a única certeza que nos irmana a todos. Vamos morrer e você nada pode fazer para impedir isso.

“A morte é, em última instância, a possibilidade da impossibilidade pura e simples de ser-aí (dasein). Desse modo, a morte desvela-se  como a possibilidade mais própria, irremissível e insuperável.”

HEIDEGGER, Martin. Sere Tempo. 4ªed. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis Vozes, 1993. Pág 326.

A inevitabilidade da morte tira o ser-aí da inércia, concedendo novo significado à sua vida e o tornando apto a viver autenticamente.

Aí chegamos ao ponto crucial de nossa jornada, existir é significativo. Pode ser o que represente viver de fato, mas, só viveremos quando estivermos livres de amarras que nos proponham viver como outros determinam, para vivermos de acordo com nossa própria consciência.

Quanto a isso, continuaremos na próxima semana.

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Iuri Rocha Iuri

Olá, sou Iuri Rocha, professor das redes estadual e particular. Sou formado em Licenciatura em História pela UFRRJ e ligado em tudo o que pode tornar o nosso mundo melhor. Para falar comigo bastar enviar um e-mail para [email protected]

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