Cidadania

 Vamos falar sobre existir II

Pois bem, aqui estamos nós mais uma vez para falar sobre as vicissitudes da existência. Na coluna anterior detivemo-nos sobre Kierkegaard e Heidegger, estabelecendo olhares para modelos de pensamento tão complexos quanto originais. Leia aqui

A partir de agora, vamos mergulhar um pouco mais fundo, e conhecer um pouco mais de Jean-Paul Sartre.

Sartre nasceu em Paris, no ano de 1905, viveu até 1980. É considerado o mais importante expoente do pensamento existencialista e um dos maiores pensadores do século XX. Essa fama não é algo vão, reside na originalidade de estabelecer a capacidade e escolha como manifestação definitiva da liberdade e, a liberdade, como característica fundamental da experiência humana de existir. Mas, como assim?

Pense bem, você não é um objeto, uma coisa. Você é dotado de uma subjetividade, ou seja, é capaz de pensar por si mesmo, sentir por si mesmo, produzir suas próprias expectativas (e se frustrar por não conseguir algumas vezes), diferente de um objeto, embora, transformar pessoas em coisas seja possível. Esse processo de transformar pessoas em coisas tem um nome, reificação. Reificar significa transformar alguém em coisa, ou seja, de um modo mais didático, segundo Georg Lukács (1885-1971), ampliando um conceito de Karl Marx (1818-1883), a reificação consiste em um processo histórico inerente às sociedades capitalistas, caracterizado por uma transformação perceptível na atividade produtiva, nas relações sociais e na própria subjetividade humana, que passam a ser identificadas cada vez mais junto ao caráter inanimado, quantitativo e automático dos objetos ou coisas ao redor. O quanto então, temos visto pessoas-coisas a nossa volta?

Leia também: Vamos falar sobre existir?

Na visão de Sartre, nós (ainda bem) não somos coisas. Coisas tem um propósito predefinido, pessoas não. Pense, uma lâmpada serve para iluminar, um lápis para escrever, uma faca para cortar. Mas, e uma pessoa? Qual é a excelência humana? Para Sartre, não nascemos com um manual de instruções, que determina o que seremos e o que vamos fazer. Nada existe predeterminado em nossa existência, que se concretiza no cotidiano, através de nossas escolhas e significando a vida dia após dia.

Não se pode esquecer também, que o existencialismo sartreano esbarra sutilmente em outro conceito bastante interessante, a intencionalidade. Ou seja, o que fazemos é dotado de propósito, assim, nossa consciência é uma visão de mundo, uma atividade que concede sentido às coisas. Em outras palavras, nossa consciência é sempre a consciência de algo, ou consciência sobre alguma coisa, tornando impossível algo fora dessa realidade, fora da intencionalidade da consciência.

Assim, a pessoa se transforma em sujeito ao se projetar para o mundo, ao observá-lo. Desse modo, o homem procura sua identidade no mundo quando se relaciona com as pessoas e coisas no mundo. Isso faz bastante sentido se entendemos que não existe uma essência humana preestabelecida, você se torna o fruto de suas decisões e ações, afinal, “a existência precede a essência.” Trocando em miúdos, sabe aquela sua tia que vive dizendo que “fulano nasceu para isso”? Agora você pode refutá-la e criar um enorme constrangimento em suas reuniões familiares.

Ora, segundo esse pensamento, o homem é o que faz de si. Segundo o próprio Sartre: “…o homem não é  senão o seu projeto, só existe na medida que se realiza, não é, portanto, nada mais do que o conjunto de seus atos, nada mais do que sua vida.”

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. 2ª ed. Tradução de Vergílio Ferreira. Lisboa: Presença, s/d. pág.267.

Para Sartre, portanto, o ser humano é responsável por sua existência e também pelo que se torna. Você não nasceu destinado a ser coisa alguma, construir-se é parte da própria vida, assim como seus sucessos e fracassos. Isso, eu sei, não é bem aquilo que gostamos de ouvir, pois as máscaras que usamos, as conveniências que assumimos são muito mais confortáveis, já que nos isentam de responsabilidade.

Este é o ponto, caríssimos. Para construirmos nossa existência, libertos de toda a predeterminação, precisamos ser livres e a liberdade só existe intimamente ligada a responsabilidade. Se você precisa de outros para lhe digam o que fazer, nenhuma de suas ações é livre. Isso é ótimo para algumas pessoas, pois elas podem se esconder atrás das ordens dos outros, nunca assumindo a responsabilidade por coisa alguma, porém o preço é bem alto.

Pense, se você é fruto de suas escolhas e, suas escolhas devem ser livres para que você seja também totalmente responsável por elas, quem vive de mendigar direcionamentos alheios não é livre e, o pior, sequer existe de certo modo. Para existirmos plenamente, precisamos ser responsáveis por nossas atitudes, pois elas são fruto de nossa livre escolha, elas nos dizem quem nós somos e constroem nossa subjetividade, nosso eu.

Quantos de nós passamos pela vida sem uma autoafirmação? Sem sabermos quem somos? Ignorantes de nós mesmos, suplicamos a outros que nos definam, que nos concedam uma identidade, todavia, nenhuma identidade obtida fora de nós pode saciar nossa sede por definição, somos carentes de nós mesmos.

E você, quem é?

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Iuri Rocha Iuri

Olá, sou Iuri Rocha, professor das redes estadual e particular. Sou formado em Licenciatura em História pela UFRRJ e ligado em tudo o que pode tornar o nosso mundo melhor. Para falar comigo bastar enviar um e-mail para [email protected]

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