Cidadania

Vamos falar sobre barbárie?

Podemos entender o termo barbárie como a condição daquilo que é selvagem, cruel, desumano e grosseiro. Essa definição, até pela proximidade da palavra, serviu como um sinônimo do termo bárbaro em si. Isso não é justo com os “bárbaros” que, ao contrário do que a maioria pensa, não eram um único povo, mas um grande número de povos cada qual com sua cultura, língua, religião e comportamento. Todavia, por que a sinonímia?

A cultura greco-romana, de onde herdamos parte de nossa própria cultura, tinha por hábito denominar de bárbaro todo aquele que não comungasse de seus valores, daí surgiu essa denominação comum de bárbaros para qualquer um que não fosse, a princípio, grego, depois romano. Ou seja, chamavam de bárbaro quaisquer pessoas que não estivesse incluída no processo civilizador deles.

Há, porém, variedade de opções quanto à ideia de barbárie. Podemos nos ater aqui a uma delas, a barbárie social. Em última instância, o termo barbárie social é um desdobramento da própria barbárie em si, é uma parte que compõe um sistema orgânico complexo, um componente do capitalismo global, que tornou insensível o sofrimento alheio para aqueles que não comungam do nosso estilo de vida. E não é assim a nossa sociedade? Cega para tudo aquilo que não a interessa?

A questão é de onde surgiu essa insensibilidade? Ou melhor, a partir de quando nos tornamos alheios ao outro?

Após a revolução industrial, a economia passou a se movimentar de forma cada vez mais veloz, bem como o desenvolvimento técnico-científico ampliou os horizontes e possibilidades para uma vida mais segura e saudável. Porém, algo aconteceu. Boa parte daqueles que dedicaram suas vidas à ciência, não o fizeram por lucros ou fama, mas por um genuíno desejo de tornar a existência algo mais agradável, seguro e melhor para todos. Santos Dumont e Nikola Tesla não almejaram riquezas, mas seus inventos são fundamentais para nós. A questão é que mercantilizaram inventos que pertenciam à humanidade, guardando seus lucros para um pequeno número de aproveitadores que permaneceram privilegiados.

O filósofo Jean-Jacques Rosseau dizia que “Uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém.” Eu concordo bastante com isso. Mas no que tange ao desenvolvimento científico, isso não ocorreu. O que deveria servir gratuitamente a todos se tornou causa de divisão e exploração. E ao longo do tempo, esse desenvolvimento contínuo, conspurcado pela ganância e sede por lucros e poder, gerou mortes, destruição e a barbárie em si. Duas guerras mundiais, nazi-fascismo, totalitarismo na URSS, conflitos regionais em vários lugares do mundo, como na Coreia, Vietnã, Angola, são alguns dos exemplos da barbárie que o século XX teve que enfrentar.

Na verdade, o século XX vivenciou o ocaso da razão na visão deste escriba. Uso o termo ocaso, para salientar um fim, se não um fim em si, o fim de uma esperança. Esperança essa que passou a ser construída ao longo dos séculos, com escolásticos como Tomás de Aquino, depois com renascentistas como André Vesálio, para alcançar pensadores da revolução científica como Galileu ou Kepler e enfim chegar ao renascimento de Voltaire, Montesquieu e do próprio Rosseau. Mas a “marcha da razão” não parou por aí, Hegel, Kant, Marx, Nietzsche, cada um a sua maneira contribuiu para que a razão iluminasse nossos passos rumo a um mundo melhor e mais justo. Contudo, como já demonstramos acima, nos perdemos pelo caminho. Com o século XX, a irracionalidade imperou de forma cruel.

O iluminismo defendia a noção de que, quanto mais evoluídas fossem as sociedades humanas, menos ações violentas e irracionais teríamos, até que a violência e a barbárie seriam apenas uma triste lembrança de uma época em que os homens apelavam para algo que não lhes era digno, em busca de satisfação para as suas ambições egoístas. Mas, apesar do desenvolvimento e das maravilhas tecnológicas criadas, fomos divididos por etnias, política, cobiça, fazendo eclodir guerras e conflitos que sufocaram a racionalidade. Em suma, apesar do homem ter criado maravilhas para enxergar cada vez mais longe, ele se tornou cego para as necessidades urgentes do agora, a ansiedade pelo futuro nublou as possibilidades do presente.

O progresso que deveria nos tornar mais sensíveis a necessidade dos outros, nos afastou, Como coisas que deveriam fazer a vida de todos ser melhor, puderam nos destruir tanto? As questões que possibilitaram essa barbárie foram estudadas por pensadores da chamada Teoria Crítica, surgida na Escola de Frankfurt, assunto de nossa próxima coluna.

Por ora, perguntemo-nos a nós mesmos: O quanto estamos ligados uns aos outros e o quanto nos importamos com isso?

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Iuri Rocha Iuri

Olá, sou Iuri Rocha, professor das redes estadual e particular. Sou formado em Licenciatura em História pela UFRRJ e ligado em tudo o que pode tornar o nosso mundo melhor. Para falar comigo bastar enviar um e-mail para [email protected]

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