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Precisamos da força das palavras

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Palavras são códigos. Nunca são inertes, são vivas. São impregnadas de sentimentos, expressão, emoções, energia. Pelo paladar, ao serem pronunciadas, nos traduzem o momento. Podem ser doces, amargas, azedas. Possuem peso. São leves como plumas ou pesadas como chumbo. Cortam, acariciam, espetam. Por isso precisam ser ditas, quando a situação assim o pede, com vigor e autenticidade para traduzirem, a quem ouve, a dimensão exata de daquilo que identifica.

Vivemos no Brasil um período que nos exige palavras exatas, precisas, de modo que nossa fala não dissimule, engane ou leve a enganarmos a nós mesmos. Precisamos dizê-las na precisão crua da verdade que devem expressar. Despidas de contorcionismos.

Pelo menos neste momento necessitamos abandonar a dimensão poética do dizer, o modo educado de se expressar para emprestar aos fatos e pessoas sua real dimensão. Estamos, efetivamente, em um período de pavor, de horror e não, simplesmente, de “uma crise”. Estamos em guerra e não em “insegurança”.
Beiramos o conflito civil, parece. Produzimos infanticídio e não “crianças vitimadas”. Estamos assombrados com o terrorismo e não “acossados por milicianos e traficantes”. Somos liderados por ladrões e não simplesmente “agentes corrompidos”.

Temos que verbalizar para sentir a dor da verdade. Já não somos um “país em desenvolvimento”, mas uma república decadente, atrasados. Temos que usar as palavras sem apoio da sinonímia, sem atenuantes. Estamos cercados por uma corja e não por representantes da “velha política“. Urge que façamos uso do idioma reto para que possamos “assumir” o que vivemos.

O brasileiro, em sua imensa maioria, está submetido, sem direito ao que lhe é mais elementar para uma vida digna. Quem vive de esmola – pública ou privada – não é cidadão. Não existem “comunidades”, como ousam dizer, mas sub-habitações, favelas, campos de refugiados.

Nossas elites dirigentes são cruéis e, porque não dizer, assassinas, inescrupulosas, repugnantes. Por isso precisam ser identificadas pelos qualitativos mais precisos, de modo que sejam percebidas em sua verdadeira grandeza. Ladrão é quem “bate carteira”. Quem rouba comida de criança, de faminto, remédio de doente, é facínora, perverso, cruel. Nossa justiça se socorre do “dedo duro”, do “alcaguete”, e não de “delatores” ou “colaboradores”. Esta é a verdade dura e crua.

Precisamos muito das palavras nesta hora para que possamos refletir mais profundamente sobre nosso país devastado. Vivemos em uma sociedade de maioria refém. Se olharmos para as “elites” de cada uma das nossas camadas sociais, veremos a cultura da cumplicidade, da camaradagem parceira, da associação bandida.
Não é verdade que as injustiças sociais formem deliquentes. Não, não é. Nossos “coronéis” são de origem abastada, e os “terroristas” são minorias privilegiadas das camadas menos favorecidas. Sejamos francos. Só assim poderemos reagir às nossas mazelas.

Comecemos então pelas palavras, por esses códigos de identificação das coisas como elas realmente são. Temos que pronunciá-las, sílaba por sílaba, pois na sua exatidão vamos identificar o verdadeiro tamanho do nosso desastre. Falemos, pois! Com vergonha, mas sem medo.

Josué Setta
Engenheiro e consultor.

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