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A trajetória do BRT Rio, da glória a derrocada

Capítulo 1: Explanações gerais

Seis anos já se passaram desde que o BRT Rio começou a funcionar. Lembro ainda do grande frisson que esse meio de transporte, até então uma novidade na cidade, causou aos seus primeiros usuários. Muitos até hoje não sabem que o BRT foi inventado em nosso próprio país, através da criatividade do Engenheiro de Transportes e Arquiteto Jayme Lerner, na tentativa de resolver o problema do transporte de massa em Curitiba (nos anos 70), onde a empreitada foi vitoriosa. Daquela cidade, o projeto foi “exportado” para várias cidades em todos os continentes, existindo atualmente versões alteradas que melhoraram o desempenho deste modal.

No Rio, a falta de coordenação entre nossos modais de transporte acelerou a implantação do BRT, assim como a realização de grandes eventos na cidade que exigiam a construção rápida de corredores exclusivos de construção rápida a custos mais baixos do que linhas de metrô.

O Transoeste foi o primeiro desses corredores de transporte a ser concluído e alteraria sobremaneira a qualidade de vida na área da cidade onde o deslocamento diário era mais deficiente, o lado oeste da zona oeste. Talvez por inexperiência das autoridades competentes na operação deste tipo de modal, algumas operações no Transoeste foram iniciadas de forma incorreta. Uma delas foi à imensa propaganda até o dia de sua inauguração que este corredor estava ligando Campo Grande e Santa Cruz até a Barra da Tijuca. Em verdade, desde o primeiro dia de funcionamento, o BRT, os “minhocões” ou “azulões” (apelidos que as autoridades tentaram dar aos ônibus do BRT, mas que não firmaram), partiam da Estação Pingo D´Agua ainda em Guaratiba, até a Barra da Tijuca e por muitos meses permaneceu assim até que algum tempo depois, seu percurso atingiu realmente o bairro de Santa Cruz. Neste, nas proximidades da estação ferroviária, foi construída uma estação de menor extensão física do que as outras e tiveram a coragem de chamar de “Terminal”. Por muitos meses o BRT saindo da estação Pingo D´Agua, passou direto sem efetivar paradas, por todas as outras estações de Guaratiba (Magarça, Mato Alto, Embrapa, Cetex e Ilha de Guaratiba). A estação Ilha de Guaratiba teve que ser incluída as pressas no projeto pois erroneamente não constava no traçado original. Isso gerou justos protestos da população local e adjacente, além de muitos “abaixo assinados” exigindo a correção de tal injustiça.

A trajetória do BRT Rio, da glória a derrocada
A trajetória do BRT Rio, da glória a derrocada / Foto: http://itdpbrasil.org.br

Quando tudo se normalizou, a viagem no BRT era um encanto só e todos exclamavam maravilhados, o fato sobre a existência de uma linha de ônibus repleta de novos atributos, com ar condicionado e a mesma tarifa de ônibus municipal comum. O melhor ainda é que cobria a distância entre os extremos em tempo várias vezes menor. De boca em boca a propaganda ia aumentando entre os moradores de Santa Cruz, Itaguaí, Guaratiba e adjacências. Uma viagem na antiga e extinta linha 882 (Barra da Tijuca/Santa Cruz) durava duas horas e foi reduzida para apenas uma hora. A viagem de Pedra de Guaratiba até a Barra da Tijuca (Terminal Alvorada) durava uma hora e vinte minutos e foi reduzida para quarenta minutos. Todavia, erros primários não corrigidos ao início da operação do BRT em nossa cidade, estão dia a dia diminuindo a eficiência nesse meio de transporte e provocando com que rapidamente caia no descrédito da população. Um lamentável erro foi à inexistência de campanhas educativas, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, no metrô do Rio (onde as campanhas e avisos até hoje são sistemáticos nas composições e nas estações). O BRT foi “jogado” ao uso dos passageiros que com o tempo, começaram por si só a aprender que para desfrutar melhor desse benefício, deveriam, por exemplo, formar filas para facilitar o embarque. Com o desinteresse ou desatenção da Prefeitura e Secretaria Municipal de Transporte, meios bons que o BRT possuí dentro das composições e nas estações (sistema de som e telões de mídia) não foram corretamente utilizados. Atualmente, notadamente nos horários de rush, mesmo que uma parcela dos passageiros formem filas, na hora em que as composições aportam nas estações, alguns elementos que estão ao final desta fila, correm desesperadamente aos empurrões para tentar embarcar a frente de quem honesta e corretamente aguardou esperando. Uma única vez percebi a uso do sistema de som das estações. Foi na ocasião em que o Papa viria rezar a missa em Guaratiba (no Campus Fidei). O sistema de som da estação Mato Alto (que ninguém sabia que existia) anunciava periodicamente que não haveria circulação das composições na quinta e sexta-feira naquela ocasião, a partir da estação Recreio Shopping. Também ao início das operações do BRT, as autoridades informaram que por medida de segurança, os carros não partiriam com as portas abertas. Um dispositivo bloquearia a partida dos carros quando este problema ocorresse. Hoje, sabe-se que essa afirmação não é verdadeira, pois em determinadas ocasiões no rush é o que mais acontece. Pessoas, penduradas nas portas, mais por vandalismo do que necessidade, viajando nas composições em pleno movimento. Desde o início, deveria ter sido explicado aos passageiros que ao entrar nos vagões, devem procurar acomodar-se em todos os locais aproveitando melhor os espaços disponíveis dentro dos mesmos. Por falta desta orientação hoje os passageiros ao entrar, acumulam-se sem sentir em frente ou próximo as portas, dificultando o acesso deles próprios e as vezes a saída de outros. Em casos piores, alguns passageiros insistem mesmo em viajar na porta, o que dificulta mais ainda a operação e força com que as composições permaneçam paradas por um tempo médio nas estações maior do que o estimado.

A crise na esfera municipal bem como na estadual, contribuiu negativamente na operação do BRT. Uma das grandes perdas foi relativa aos agentes de estação (de empresas particulares contratadas) que notadamente nos horários de pico, fiscalizavam e organizavam as filas nas estações de maior movimento, geralmente terminais como Santa Cruz, Mato Alto, Pingo D´Agua, Magarça e outras. A falta de pagamento dos serviços fez com que a empresa responsável por este serviço se retirasse assim como a que fornecida os gradis separadores (que eram alugados). Como exemplo do que tento explanar aqui, na estação Pingo D´Agua no horário matutino, esses agentes organizavam a fila de tal modo positivo que ninguém conseguia “enganar” o sistema de filas. Eram formadas para passageiros especiais (idosos, gestantes, cadeirantes, deficientes, etc.), fila para embarque nas composições para Salvador Allende e Alvorada, em separado. A fila que chamavam de “prioridade” era sempre a primeira e embarcar em todos os casos e seus passageiros (idosos, gestantes, cegos, cadeirantes, deficientes, etc.) eram solicitados a usar os assentos de cor amarela, para não atrapalhar o fluxo normal dos demais passageiros o que é muito justo. Dessa forma a entrada de passageiros “prioritários” era efetuada de forma organizada e respeitosa e com muita organização e rapidez. Para tal, esta entrada era efetivada pela última porta da composição (e todas as outras permaneciam fechadas). Depois então era permitida a entrada da fila correspondente aos outros passageiros que se destinavam aos terminais de Salvador Allende ou Alvorada. Por fim, era solicitada abertura das três outras portas restantes dos vagões e entravam os que aguardavam na fila de “passageiros em pé”. Hoje, com a ausência desses agentes e serviço, quando as composições aportam nas estações, ocorre um grande tumulto (mesmo com as filas formadas) onde “só os fortes sobrevivem”. Isso ocasiona que pessoas que tenham necessidade de embarcar com tranquilidade, movidos por sua condição diferencial, sejam obrigados a viajar de pé, espremidos aos demais passageiros. Por vezes, atitudes louváveis de boa educação, como já presenciei diversas vezes, alguns passageiros cedem seu lugar a estes usuários especiais. Dentro dos vagões existe até mesmo uma mensagem gravada solicitando essa atitude. Todavia a mensagem é muito baixa (mal gravada) e quase não é mais veiculada nos vagões (assim como o aviso de chegada das estações), principalmente nos BRT´s do corredor Transoeste. Em todos os locais do planeta, percebe-se através dos vídeos que os passageiros que desejam embarcar, esperam primeiramente os que dentro dos vagões, necessitam sair. Após o desembarque destes, inicia-se então o embarque de quem está na plataforma. No BRT Rio esse momento transforma-se em verdadeira “batalha” por falta de ensinamento. Quem está fora, quer entrar, ao mesmo tempo em que passageiros dentro, necessitam sair.

Existindo quatro portas nos carros do BRT, foi sugerido logo ao início da operação, que a direção do sistema adotasse as duas portas das extremidades da composição (a primeira e a última porta) apenas para entrada, deixando as duas centrais apenas para saída. Logicamente os passageiros deveriam ser orientados para seguir essa diretriz. Essa medida talvez facilitasse sobremaneira o funcionalidade do sistema. Nos casos de ônibus BRT com apenas um carro (os da linhas entre Campo Grande e Santa Cruz) esse embarque deveria ser feito na porta traseira e o desembarque na dianteira.

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Ronaldo de Andrade

Carioca, iniciou carreira no Serviço Público Federal em 1975, na área de radioproteção e dosimetria. Gerenciou setores de atendimento no fornecimento e controle de monitores individuais de radiação, aferição em aparelhos de radiologia odontológica no RJ e calibração de monitores de radiação no Instituto de Radioproteção e Dosimetria da Comissão Nacional de Energia Nuclear.

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