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A trajetória do BRT RIO, da glória a derrocada

A cada dia tomamos conhecimento através da imprensa ou de reclamações da população, de graves problemas no funcionamento do BRT. O sistema que foi criado para ser um modelo eficiente de transporte degrada-se rapidamente sem que sejam tomadas medidas corretivas, tanto por parte de técnicos que o adaptaram para nossa cidade assim como da Secretaria de Transportes, Prefeitura ou Governo do Estado. A burocracia irmanada à má gestão tornam-se consideráveis agravantes ante a estes fatores. Durante todo esse tempo o problema das pistas (um dos maiores) ficou sem solução. A única providência que tem sido aplicada vez em quando são operações de “tapa-buraco” nestas pistas sem nenhum estudo tecnológico e esses em poucos dias transformam-se em novos buracos, por vezes maiores ainda do que os anteriores. Essa desagradável disfunção é exclusividade do Corredor Transoeste (o primeiro a ser implantado) uma vez que nos corredores Transolimpico, Transcarioca e até mesmo o Transbrasil (em construção), as pistas são corretamente preparadas com uso de concreto. A viagem anteriormente macia e tranquila dos carros do BRT no trecho entre as Estações Pingo D´Agua e Terminal Alvorada, notadamente no trecho em Guaratiba, transformou-se num desagradável evento de solavancos, pula-pula e freadas bruscas na tentativa dos motoristas desviarem de grandes buracos. Existem até casos de composições que em alguns trechos, saem da pista segregada e usam a comum, até alguns metros adiante, retornando depois. Além de esse evento ser desagradável e inapropriado, a má qualidade na pista, colabora para a diminuição da velocidade das composições durante as viagens. Desta forma, um dos fatores mais elogiados no BRT, a diminuição do tempo entre pontos, fica prejudicada. Sem medo de errar no que aqui estamos afirmando, esse problema poderia ser facilmente resolvido. A partir de um ponto inicial digamos, da Estação Pinto D´Agua em direção ao Terminal Alvorada, a pista poderia ser concretada de 300 em 300 metros. Isso não traria grandes consequências ou diferenças no funcionamento desse corredor já que os trechos em torno das estações já são concretados. Esses buracos também contribuem para o rápido desgaste mecânico das composições onde um dos maiores prejuízos são para os amortecedores dos ônibus. Passageiros que desembarcam no Terminal Alvorada e se transferem para BRT´s dos corredores Transcarioca e Transolímpico sentem uma diferença crucial nas viagens e sem exagero, os carros destes corredores parecem “flutuar” tamanha é a suavidade no rolamento. O “jogo de empurra” entre as autoridades (Construtoras x Prefeitura) vem impedindo a resolução desse conserto uma vez que ninguém quer assumir a culpa ou arcar com os custos. Se algum dia a obra do corredor Transbrasil (que está sendo implantado no eixo da Av.Brasil) entrar em funcionamento, grandes dificuldades estão previstas já nos primeiros dias do funcionamento. Esse projeto já foi modificado por várias vezes. Seu trajeto na Avenida Brasil, partiria do Cajú até o início da Via Dutra (Rodovia Rio-São Paulo). Depois resolveram que deveria ser estendido até Deodoro (nas proximidades do Terminal do corredor Transolímpico, que apesar de estar funcionando, a operação não chegou até aquele ponto*). No lado sul, há informaram que o ponto inicial seria no bairro do Cajú que pouco depois houve mudança na ideia e informam que partirá das imediações do Aeroporto Santos Dumont no centro da cidade. O conjunto de informações sobre esse corredor é muito duvidoso e parece que ainda não chegaram a uma e resolução final em plena construção desse benefício que fica por vários meses com a obra parada ou em ritmo muito lento.

Em praticamente todos os lugares do mundo onde existem aquelas portas transparentes blindadas em plataformas de sistema de transporte de massa, sejam metrôs ou monotrilhos, não se observa esses dispositivos abertos a não ser ante a chegada, parada e abertura das portas das composições. Cremos que o sistema instalado aqui, não seja o mais eficiente ou talvez tenha sido o mais barato. Vândalos aprenderam que um simples toque no sensor da porta feito pelo lado de fora, consegue abri-las sem nenhuma dificuldade. Outro fator interessante é que quando uma composição passa nas plataformas, mesmo sem parar ou já em aceleração, essas portas apresentam movimento de abrir e fechar, quando não deveriam.

A trajetória do BRT RIO, da glória a derrocada [Manutenção x Vandalização]
A trajetória do BRT Rio, da glória a derrocada

No dia 24 de março do corrente ano, necessitei fazer viagem no trecho entre o Terminal Alvorada e a Estação Mato Alto em torno das 15 horas. A composição em que embarquei, talvez por inexperiência ou mau treinamento do motorista, estacionou fora do seu local determinado (inclusive com placa indicativa) no Terminal Alvorada. As f filas de embarque que já estavam organizadas, em poucos segundos transformaram-se em tumulto. Dentro da composição (cujas janelas são vedadas), verificou-se o mau funcionamento do sistema de ar condicionado. Também pudera, alguém em viagem anterior abriu as portinholas do teto e assim o ar que já estava fraco não tinha rendimento algum. Outro fator negativo era um passageiro que não permitia a abertura de uma das abas da segunda porta. Prendia a mesma com seu corpo e em todas as estações em que o veículo parava só abria uma aba da porta e o indivíduo não foi sequer advertido pelo motorista, que a través de câmera, tem plena condição de saber e observar o funcionamento das portas. Essa advertência poderia ser feita pelo sistema de som interno que existe no ônibus. Neste BRT igualmente a muitos outros, a borracha de vedação desta porta estava com pedaços faltando. Por esses e outros motivos, a direção do BRT deveria destacar funcionários ou equipe técnica para monitorar ou viajar aleatoriamente em algumas composições, anotando esses acontecimentos e procurando dentro do possível solicitar a colaboração dos passageiros. O funcionamento dos corredores é efetivado por ônibus de várias empresas mas que em verdade funcionam como uma só pois para tal foram formados os Consórcios (Transoeste, Transcarioca e Transolimpico).

A implantação de enormes boxes para venda de produtos alimentícios em determinadas estações de maior movimento é absurda. Em seu lugar, deveriam ser construídos banheiros para uso dos passageiros.

Em relação às estações, algumas precisam de reformulação para atender com maior eficiência ao público usuário. A do “terminal” Santa Cruz nem merece ter esse nome (“terminal”). Precisa ser ampliada em sua largura, aproveitando-se o espaço vago atualmente existente ao lado externo, hoje ocupado por mendigos e população de rua. É incrivelmente mais estreita do que todas as o outras do corredor Transoeste e é difícil embarcar, transitar ou desembarcar nos horários de pico. A coisa piora com a formação de filas que são ruins até para serem controladas. Uma vez que a linha expressa para Campo Grande, partindo dos Terminais do Alvorada ou Jardim Oceânico ao que nos parece nunca será criada, a Estação Mato Alto precisa ter sua extensão aumentada para que comporte ao menos a parada de um número maior de composições BRT em sua plataforma. Essa extensão poderia ser construída no lado que fica em direção a Santa Cruz, dada a existência de espaço físico que comportaria essa ampliação. Um fator que dificultaria a entrada de usuários sem pagar a passagem é a falta de grades ou redes na parte externa ao longo de toda a extensão das estações. Não sabemos se os guardas que operavam antigamente nas plataformas tinham treinamento ou orientação em relação a atitudes ou protocolos a serem adotados em casos de coibir prática destas infrações. Todavia pude observar no passado, uma dupla destes guardas uniformizados (não lembro se eram Guardas Municipais ou da Polícia Militar) conduzindo um rapaz acompanhado de um menino, do meio da plataforma até a bilheteria, para pagasse o ingresso. Havia ingressado na plataforma usando uma destas portas, constantemente abertas. Hoje em dia, pelo menos a metade dos passageiros que desembarcam na Estação Mato Alto, o fazem perigosamente através destas portas. Descem da plataforma diretamente na pista, sem observar a vinda de composições do lado oposto. Essa prática uma vez quase resultou em atropelamento simultâneo de sete pessoas (inclusive duas senhoras). Ao descer para a pista, foram quase atropeladas pela composição que vinha em sentido contrário, saindo do setor de linhas “paradoras”. Quando o atento motorista freou a composição, estes pularam inadvertidamente para a pista de rolagem dos carros ao lado e como o sinal de trânsito estava aberto, esses que passavam em velocidade, foram obrigados a frear bruscamente, quase causando uma “batida” múltipla, além do atropelamento de um grande número de pessoas. O comércio de quinquilharias e produtos alimentícios de origem duvidosa, tomou conta de grande parte das estações e invadiu também as composições. Pedintes de toda a espécie também colaboram para infernizar, incomodar e constranger atualmente os passageiros em todos os corredores do BRT. Muitas vezes o passageiro tem em sua posse pouco dinheiro ou suficiente apenas para o pagamento de sua passagem e um pequeno lanche. Desta forma fica envergonhado ou constrangido frente a esse cidadãos que hoje em dia agem livremente dentro dos vagões do BRT.

Observa-se que no decorrer desses anos, os BRT´s do corredor Transoeste estão a cada dia encostando mais longe das plataformas. Não sabemos se é por deficiência no treinamento dos novos motoristas ou se por falta do dispositivo lateral de borracha, que devido ao atrito, encontra-se muito gasto ou já nem existe em muitas estações (inclusive no Terminal Alvorada, onde há pouco tempo passado notou-se apenas a presença dos parafusos de fixação deste dispositivo). Os futuros BRT´s, em prol da melhoria das condições de segurança dos usuários, deveriam possuir o mesmo equipamento existente nas portas dos BRT´s de Curitiba. Assemelham-se a uma pequena passarela que abre junto as portas. Este dispositivo elimina o vão que naturalmente existe entre o ônibus e a plataforma e os passageiros no embarque ou desembarque usam-no como se fosse uma pequena ponte, além de facilitar sobremaneira o trânsito de cadeirantes. No BRT do Rio, na primeira porta das composições, existe no piso uma plataforma móvel que facilita o embarque de cadeirantes. Todavia tem que ser acionada manualmente, o que a deixa praticamente sem utilidade. Um dos motivos é o tempo de parada em cada estação ser limitado e não haver instruções para o ajudante do cadeirante utiliza-la. Também, devido ao estado de lotação do BRT que tem os espaços internos sempre ocupados (inclusive nas portas), seu uso em condições normais seria quase impossível, já que exigiria que passageiros tenham que se afastar para que o alça (um tipo de maçaneta) que aciona o dispositivo possa ser puxada e depois devolvida ao seu local.

A concepção do BRT no Rio e sua implantação nos principais corredores de massa, deveria nesses anos em que existe ser seguida e orientada com mais seriedade pelos técnicos responsáveis, para continuar a ser um meio eficiente. O corredor Transoeste por exemplo, não atende só ao eixo no qual foi implantado (Santa Cruz, Guaratiba, Recreio e Barra mas é fundamental também para grandes e populosos bairros adjacentes (Campo Grande, Senador Camará, Bangú). Moradores desses últimos bairros citados, dado ao mau planejamento ou não seguimento das diretrizes do BRT, são obrigados a lotar nos horários de pico as estações de Magarça e notadamente Mato Alto. Uma parte dos moradores das regiões de Bangú e Realengo, mudaram sua tática e estão fazendo uso do terminal BRT em Sulacap (no corredor Transolimpico) de onde partem composições para Jardim Oceânico e Recreio). Todavia, não foi construído até hoje o acesso para integração dos corredores (Transolímpico e Transoeste) no terminal Recreio e isto tem obrigado os passageiros que necessitam fazer transferência entre esse terminal e a estação Salvador Allende, terem que pagar por nova passagem. Uma simples passarela ligando uma estação até outra, resolveria esse nosocômio mas as autoridades responsáveis “fazem de conta” que o problema não existe e não tomaram até então nenhuma medida para corrigi-lo.

Se não forem tomadas providências enérgicas para a correção necessária de males adjacentes do funcionamento do BRT nos últimos anos, o início das atividades no corredor Transbrasil (em construção), promete uma série de novos e enormes problemas. Imaginem as confusões que poderão advir no uso desse meio por passageiros na imensa região de favelas, chamada “Maré” que começa na direção da antiga entrada para o Aeroporto do Galeão e termina nas imediações do bairro e cemitério do Cajú. Neste trecho existe até uma cracolândia em meio a pista onde passará o BRT Transbrasil que as autoridades até hoje não conseguiram exterminar apesar de alguns esforços. No Transbrasil, o embarque será feito através de passarelas de acesso. Anda assim podemos esperar s confusões decorrentes de vândalos que gostam de embarcar sem pagar a passagem, inclusive com atravessando perigosamente as pistas expressas da Avenida Brasil. O Transbrasil, diferente dos outros corredores, não terá duas pistas segregadas e sim quatro que receberão as linhas expressas que circularão em maior velocidade, trazendo passageiros da Baixada Fluminense e bairros mais longínquos da cidade. Saindo destas pistas estão sendo construídos alguns viadutos que nos levam a prever que também estarão circulando nesse corredor linhas provenientes de Bonsucesso e Penha. Na saída da via Dutra, um novo viaduto deverá receber as linhas do terminal eu ali será instalado para atender aos passageiros da Pavuna, São João de Meriti, Nilópolis, Belford Roxo e Nova Iguaçu pois se transferirão dos ônibus da Baixada para os BRT´s do Transbrasil. Enfim, vamos depositar esperanças para que as autoridades responsáveis se conscientizem que esse fantástico meio de locomoção de massa, que tanto sucesso fez ao início de sua operação, devido a sua funcionalidade, não venha a cair no descrédito total da população e seja de real utilidade a população carioca.

*Os BRT´s do corredor Transolímpico, que liga o Recreio até Deodoro, só está lindo no momento até a estação da Vila Militar (ao lado da estação de trens da Supervia, de mesmo nome) pois as obras do terminal Deodoro não ficaram prontas, estando no momento paralisadas. Uma lástima.

No BRT Curitiba, como assinala a seta na foto ao lado, uma rampa se abre junto com as portas, criando uma pequena ponte que aumenta o nível de segurança dos passageiros ao embarcar e desembarcar, facilitando sobremaneira a cadeirantes.

Ref.: skyscrapercity.com

Foto: PORTA1

Na foto ao lado, melhor exemplificado o exemplo da rampa que abre-se junto as portas para facilitar o embarque dos passageiros, cadeirantes e até bicicletas. Essa rampa elimina o espaço entre a composição e a plataforma.

Foto: PORTA2

Ref: www.diariodotransporte.com.br

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Ronaldo de Andrade

Carioca, iniciou carreira no Serviço Público Federal em 1975, na área de radioproteção e dosimetria. Gerenciou setores de atendimento no fornecimento e controle de monitores individuais de radiação, aferição em aparelhos de radiologia odontológica no RJ e calibração de monitores de radiação no Instituto de Radioproteção e Dosimetria da Comissão Nacional de Energia Nuclear.

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