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Vamos falar sobre identidade feminina?

“Ser um homem feminino; Não fere meu lado masculino”

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Pepeu Gomes já cantava os versos acima em 1983, trata-se da canção “Masculino e Feminino”. Mas o que tais versos têm a ver com identidade? Ora, sempre teve. O homem carece de definição para si e, nos tempos atuais, temos uma bagunça generalizada, um desencontro proposital de opiniões travestidas de informações, uma miscelânea de vozes que, gritando, querem impor suas ordens sobre os demais.

Assim, a coluna dessa semana se debruça uma vez mais sobre um, ou melhor, uma existencialista, Simone de Beauvoir. Filósofa que refletiu sobre a condição da mulher na sociedade contemporânea foi companheira de Jean-Paul Sartre e, com seus escritos, inspirou boa parte do movimento feminista, esclarecendo questões antigas sobre o papel das mulheres e questionando os motivos para a permanência de certos comportamentos.

Antes de mais nada, para que possamos dissipar qualquer névoa de um preconceito rançoso, infelizmente cada vez presente em nossa sociedade, cabe definir alguns termos para evitar problemas e informar aos desavisados. São eles: feminismo, machismo, misoginia e misandria.

  • Feminismo: conjunto de movimentos políticos, sociais, filosóficos que preconizam a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres;

  • Machismo: comportamentos que explicitam, através de ações e opiniões, a recusa em aceitar a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres;

  • Misoginia: aversão ao sexo feminino;

  • Misandria: aversão ao sexo masculino;

Logo, como podemos ver acima, feminismo não é uma doutrina de ódio ao sexo masculino, não prega que homens são inferiores, tampouco se regozija com os males que acometem o homem, como algumas pessoas parecem querer entender. Podemos chamar o comportamento de ódio ao sexo masculino como misandria.

Como um contraponto ao parágrafo anterior, é importante notar que o machismo e a misoginia geralmente caminham juntos. Um comportamento machista fere a dignidade e muitas vezes o corpo das mulheres, embora o machão costume espalhar o apreço ao sexo feminino por aí, não é bem isso que acontece, pois o propalado apreço ao sexo feminino se restringe a anatomia, como se as mulheres não fossem mais que isso.

É aí que a contribuição de Beauvoir se mostra fundamental. A ideia de que ser mulher é mais que uma combinação de genes, é fundamental para a construção da identidade feminina, como podemos ver no trecho de sua obra “O segundo sexo”:

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 2ª Ed. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Difel, 1967. Pág 9.

Isso deixa evidente que, para Simone de Beauvoir, ser homem ou mulher não se trata de uma condição meramente biológica, imposta a cada indivíduo inteiramente em seu nascimento. Para Beauvoir, aqui se apresenta uma grande diferença entre a ideia de sexo e a ideia de gênero.

  • Sexo: definido biológica ou anatomicamente, nascendo macho ou fêmea;

  • Gênero: estabelecido socialmente. A condição de ser homem e mulher depende de interação social, ou seja, ser homem e mulher é mais que ser macho ou fêmea;

Nessa perspectiva, um indivíduo do sexo feminino torna-se mulher conforme a convivência social delimita essas características. Historicamente, a sociedade patriarcal (dominada pelo sexo masculino), relega às mulheres um papel subserviente, o que fica expresso no título da obra “O segundo sexo”. Em outras palavras, a pessoa do sexo feminino aprende a ser mulher e, concomitantemente, aprende a se submeter a uma situação de inferioridade por meio de padrões sociais expressos em crenças, tradições, valores, manutenção de costumes e rituais sociais.

Ao deixar evidente que os gêneros masculino e feminino são construtos sociais e não fenômenos naturais deterministas e imutáveis, Beauvoir tornou possível o questionamento das condições impostas pela sociedade às mulheres, permitindo novas expressões sobre a ideia de gênero. É importante ressaltar que, graças a discussão sobre gênero, os direitos das mulheres passaram a ser mais respeitados e elas passaram a compor, cada vez mais, espaços antes fechados ao feminino. Hoje, mulheres são presentes em obras, direção de empresas e na política, ajudando a construir uma nova sociedade.

Não é estranho, então, que existam grupos interessados em calar essas vozes. Grupos que durante séculos usaram seus privilégios sobre outros grupos, não gostam de minorias exigindo direitos. Mas como esses grupos privilegiados convencem outros de que seus privilégios são algo “normal”? Eles nos “vendem” a ideia de que “é normal”. “Normal” usar os outros, não respeitar, agredir, silenciar e ridicularizar todos os que se opõem. Quantas vezes você já ouviu críticas à roupa de uma moça? Quantas vezes você já viu alguém defender uma violência já que ela “não se dava ao respeito”?

Mas querem dizer que meu filho pode ser menina se quiser. Não, não querem. Aliás, é importante ressaltar que a ideia de ideologia de gênero não existe. É um uso propositalmente inadequado para o termo, assim como generalizar como “esquerda” uma gama enorme de ações políticas. Ideologia de gênero, portanto, não existe. O que existe são estudos multidisciplinares, que não negam a biologia, apenas dizem que ela não deve ser a determinante de nosso destino social.

Então, o que fazer? Simples. Manter o respeito, sempre.

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Iuri Rocha Iuri

Olá, sou Iuri Rocha, professor das redes estadual e particular. Sou formado em Licenciatura em História pela UFRRJ e ligado em tudo o que pode tornar o nosso mundo melhor. Para falar comigo bastar enviar um e-mail para iuri@meioambienterio.com

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