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Tragédia anunciada: documentário relata ciclos de destruição na Amazônia

Produção norte-americana chega ao Rio para divulgar investigação sobre os grandes negócios na maior floresta tropical do mundo

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O misticismo da Floresta Amazônica é recorrente no imaginário popular e nas obras artísticas de tempos diversos. Para o bem ou para o mal, a exuberância do inferno verde de Alberto Rangel tem sido um desafio constante para todo tipo de pesquisadores, cientistas, aventureiros, políticos e empresários. Infelizmente, a expressão desmatamento na Amazônia também está no imaginário brasileiro e internacional, como uma ameaça que precede o colapso de todo um sistema verde.

Hoje, uma das grandes ameaças ao vacilante equilíbrio de um bioma tão complexo é o carro-chefe da economia brasileira: o agronegócio. As imagens e depoimentos que contam um pouco dessa história estão documentados em Beyond Fordlândia (Muito Além de Fordlândia, EUA-BR, 2017, 75 min.), documentário lançado este ano nos Estados Unidos e prestes a desembarcar no Rio de Janeiro. A soja na Amazônia, porém, não é uma invenção contemporânea. Apesar de ter sido estabelecida na região de floresta recentemente, as primeiras experiências com o grão estão localizadas em um momento anterior na linha do tempo brasileira.

Um dos grandes empresários que se aventuraram em terras brasileiras foi Henry Ford. No dia 30 de setembro deste ano, completaram-se 90 anos da concessão de 1 milhão de hectares para o plantio de seringueiras em Boa Vista, Pará, às margens do Rio Tapajós, um dos afluentes do Amazonas. A resolução aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado do Pará foi o aval do governo brasileiro para a incursão pioneira de um tycoon na área da Amazônia. O termo designa homens ricos e poderosos como Ford, que se tornaram ricos e poderosos a partir de seus negócios. No seu caso, carros.

Ford instalou e pôs em operação a montagem em série de automóveis, passando de menino fazendeiro de Michigan ao homem mais rico do mundo de sua época. Em busca da autonomia para sua cadeia produtiva, esbarrou em um dos grandes episódios da história brasileira. Em 1928, os navios da companhia do empresário chegaram a Santarém, no Pará, após passarem por uma série de “cidades fantasmas”, incluindo a atual capital, Belém.

Em 1913, o látex das seringueiras roubadas por ingleses (70 mil sementes) chegou ao mercado internacional, atirando o ciclo da borracha na Amazônia no fundo do poço. As pujantes construções e o luxo de cidades tornaram-se ruína, esquecimento e lamentação. Os britânicos, agora detentores de um poderoso mercado, começaram a regular preços para proteger sua produção, subindo os preços e incomodando os vizinhos na América do Norte. Ford temia, com razão, a formação de um cartel liderado por Churchill. Herbert Hoover sugeriu, através de seu cargo de Secretário de Comércio dos Estados Unidos, que o eixo da produção de borracha deveria ser orientado de volta a uma posição favorável para o país.

Ford era o homem para essa empreitada. A borracha representava 30% do custo para produção de um carro. Se fosse bem sucedido, o empresário dominaria todas as etapas e matérias-primas necessárias para seus automóveis. Os navios trouxeram materiais de construção e mão de obra para gerenciar os trabalhos, desenvolvidos por habitantes locais. Fordlândia, hoje distrito do município de Aveiro – PA, foi a cidade erguida após a derrubada e queima de 800 mil hectares de floresta para atender à produção de borracha e acomodação dos trabalhadores de todo esse complexo produtivo. A experiência, porém, tomou rumos diferentes. Autores de best-sellers sobre a malograda aventura como Joe Jackson (O Ladrão no Fim do Mundo) e Greg Grandin (Fordlândia) relatam um ponto em comum: para além da borracha, Ford queria controlar o Eldorado Amazônico, queria impor uma lógica capitalista tanto às comunidades locais quanto aos variados ecossistemas da floresta.

Além das rebeliões e manifestações dos empregados brasileiros (discriminados em termos culturais, sociais e econômicos dos empregados americanos), o golpe fatal foi dado pela floresta. A disposição natural das seringueiras em meio à mata é espaçada, o que tornava o trabalho de coleta do látex inviável para uma produção em série. Entretanto, as diversas espécies que conviviam com a seringueira (a valiosa biodiversidade) protegiam-na de predadores naturais: fungos e mofo. Após 18 anos de um combate tanto simbólico quanto real contra a floresta, Ford foi derrotado.

Belterra, segunda cidade fundada por seu empreendimento, foi palco de outro plano do empreendedor. Foi construído na cidade um laboratório industrial para investigar usos diversos para espécies vegetais. Entre elas, a soja. Uma das intenções era produzir plástico a partir do grão, cuja aplicação serviria para automóveis e eletrodomésticos.

A história de um legado

Marcos Colón chegou a Fordlândia através de sua pesquisa de doutorado. Professor no Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Wisconsin – Madison (UW, EUA), estuda a representação da Amazônia na literatura do século XX. O trabalho é desenvolvido no Centro de Cultura, História e Meio Ambiente do Instituto Nelson de Pesquisas Ambientais da UW.

Marcos Colón recebe prêmio de documentário de conscientização no FICMA
Marcos Colón recebe prêmio de documentário de conscientização no FICMA

Em 2016 realizei visitas à Amazônia, no Peru e no Brasil, com o apoio do Instituto Nelson e do Programa de Estudos Latino-Americanos, Caribenhos e Ibéricos. Ter contato direto com a região e com as histórias que conheci na pesquisa foi muito importante para a concepção do filme. Fordlândia é mencionada em O Turista Aprendiz, de Mário de Andrade. Ele viu o início das construções de Ford na região, e aquilo chamou minha atenção imediatamente, por conta do estado de abandono após uma experiência tão complexa”, afirma o diretor.

Com o projeto do documentário em mãos, Colón fez diversas viagens para o Amazonas e o Pará entrevistando professores, cientistas, poetas, pesquisadores, médicos, moradores e tribos locais. Em 18 meses, Beyond Fordlândia reuniu vozes nacionais e internacionais para debater o legado fordista e a crescente expansão da monocultura de soja.

Ford merece respeito por seu empreendedorismo. Isso temos que respeitar. Mas não é a qualquer custo. Ao observar o que era feito na Ásia, os sucessos em relação à cultura da seringueira, ele julgou ser possível derrubar a mata, queimar, e plantar seringueira. E acreditou de fato que seria possível derrubar a floresta e construir algo. E hoje Fordlândia está aí, no zero”, afirma o Dr. Marcus Barros.

Dr. Marcus Barros
Dr. Marcus Barros

O médico amazonense é uma das grandes autoridades sobre medicina e crítico do agronegócio em zona de floresta. Barros dirigiu o Ibama de 2003 a 2007 e crê que o modelo produtivo de soja existente não é favorável aos habitantes, à cidade e ao estado.

Me desculpem pelo que vou falar, mas isso [o agronegócio] é um coito interrompido. Eles estimulam, utilizam e desaparecem, deixando toda a miséria para trás. Quando a soja for embora, tenho medo do que vai ficar. Não podemos avaliar apenas a soja e esquecermos da ciência e do conhecimento, temos que nos preparar. Não podemos permitir que a produção avance sobre mais uma árvore sequer”, conta o médico.

O paraense Lúcio Flávio Pinto, jornalista há cinquenta anos, é cético em relação ao imaginário que persiste sobre a época da borracha. Lúcio endossa a fala de Barros e aponta que o agronegócio é mais um exemplo.

Lucio Flávio Pinto
Lucio Flávio Pinto

Nós estamos com dois ciclos que já superaram a borracha: o minério e a soja. E toda vez que temos problemas com os quais não queremos lidar, voltamos à borracha: os melhores prefeitos, a construção dos teatros, os carros e casas luxuosos, tudo na época da borracha era melhor. E, assim como a borracha, você não vai conseguir conservar nada”, questiona Lúcio.

Do ventre da Terra

Assim como o ciclo da borracha, a soja trouxe altos investimentos ao estado do Pará, que não estão direcionados ou garantidos para o desenvolvimento local. Consolidada na Lei Kandir, de 1996, a isenção fiscal para produtores de grãos e minério para exportação reforçam a fala de Barros: não há garantia para os moradores e para a região, forçados à condição de espectadores de um mercado extremamente lucrativo.

O Brasil tornou-se em 2017 o líder mundial na exportação do grão, com 52 milhões de toneladas de soja exportadas, de acordo com dados publicados pelo Ministério da Agricultura e a Companhia Nacional de Abastecimento. Calcula-se que a perda de arrecadação do Pará desde a implantação da Lei Kandir esteja próxima dos R$ 35 bilhões. Além disso, a compensação do Governo Federal soma cerca de R$ 7 bilhões, aproximadamente 25,65% do valor total.

Aqui era o polo da farinha de tapioca. Quando surgiram as primeiras ofertas, muitos moradores foram vendendo as terras. Nunca havíamos visto aqueles valores de 30 e 50 mil reais. Muitos gastaram todo o dinheiro. Isso diminuiu tanto a produção da mandioca quanto o ganho para as pessoas que vinham em busca de trabalho na vila. Como um polo, a microempresa, dava serviço para muita gente. Até para quem não era produtor de mandioca”, lembra Dercy Godinho, residente de Boa Esperança, distrito de Santarém.

Chefe da tribo Munduruku, o Cacique Emanuel pressente o perigo do desaparecimento das comunidades e culturas locais. Constantemente pressionada por concessões florestais e em constante luta pela demarcação de seus territórios, a tribo é um dos retratos do impacto social e ambiental do agronegócio.

O nosso território é aqui, no planalto de Santarém. Somos quatro aldeias no território. E não temos nenhum benefício da CARGILL. O que recebemos é discriminação, preconceito, prostituição e droga. É isso que o governo e os empreendimentos geram para nós, que sobrevivemos da roça, da nossa farinha de macaxeira, banana, piquiá, castanha… E hoje ninguém tem mais isso. A mandioca fica azulada por causa do veneno”.

Tragédia anunciada

A Cargill, citada pelo cacique, é a gigante do mercado das commoditties, oriunda de Minneapolis, nos Estados Unidos, que detém um porto cargueiro em Santarém. Em conjunto com produtores representados na Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (ABIOVE) e na Associação Brasileira dos Exportadores de Cereais (ANEC), além de ONGs como o Greenpeace, Imaflora, Ipam, TNC e WWF-Brasil e, posteriormente o governo federal, participou em 2006 do acordo denominado Moratória da Soja. O documento teve sua data base modificada para 2008, para adaptar-se ao Código Florestal aprovado em 2012.

Os signatários da Moratória comprometeram-se a recusar em sua cadeia de consumo ou produção a soja proveniente de áreas desmatadas após 2008. Em consonância com o Cadastro Ambiental Rural, a ideia é monitorar as áreas de reserva legal para impedir a derrubada de novos contingentes em propriedades cadastradas. Ocorre que a queda do desmatamento, creditada pelos participantes da moratória ao acordo, não parece ser uma realidade sólida. A concentração de terra e contaminação de corpos hídricos e de habitantes por agrotóxicos são problemas reais, e os instrumentos jurídicos por si sós não garantem a sobrevivência da floresta, assim como não impedem que a grilagem e o gado convertam floresta em campos disponíveis para o agronegócio.

A gestão ambiental também tem sido um problema para o futuro da floresta e do homem amazônico. Embora seja diferente das tacanhas opiniões do presidente estadunidense, a condução de Temer não acumula manchetes favoráveis. Na semana em que acontece a 23ª Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas, iniciada nesta segunda-feira (6/11) em Bonn, Alemanha, o Brasil está numa posição polêmica para as negociações do Acordo de Paris, por conta de propostas graves como o marco temporal, que prejudica a demarcação de terras indígenas, a Lei da Grilagem, a restrição do conceito de trabalho escravo e o arrendamento de terras indígenas para o agronegócio. Tais medidas são, em grande parte, moedas de troca para a bancada ruralista auxiliar na aprovação das agendas do Planalto e livrar Temer das acusações de corrupção.

Beyond Fordlândia venceu o prêmio de melhor documentário longa-metragem no 8º Cabo Verde International Film Festival, e o prêmio de Melhor Documentário de Conscientização no Festival Internacional de Cine del Medio Ambiente (FICMA), em Barcelona. A produção investiga os pontos que ligam o passado da borracha com o presente da soja. A floresta conseguiu sobreviver às aventuras de Ford, mas o agronegócio está mais equipado, tem mais tecnologia e capacidade de pressionar áreas para sua expansão. “Deus é grande, mas o mato é maior”, diz o ditado, assim como outro manifesta: “Deus sabe da verdade, mas às vezes esquece”. A floresta não esquece. Será esse mais um episódio de sobrevivência?

O filme chega ao Rio de Janeiro hoje, 14 de novembro. A exibição será parte do Festival Filmambiente, e haverá debate com presença do diretor Marcos Colón, do médico Marcus Barros e do jornalista Lúcio Flávio Pinto.

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Vagner Liberato

Meu nome é Vagner Liberato, sou carioca e vivo no Rio de Janeiro.
Formei-me em Administração de Empresas e sou um apaixonado por conteúdo sustentável.
Desde 2015 faço o Jornal Sustentabilidade com maior prazer!

Para falar comigo, entre em contato pelo email:
contato@meioambienterio.com

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