Meio Ambiente

Embrapa apresenta alternativas de alimentação do rebanho no período da seca

O Encontro regional sobre pecuária leiteira aconteceu na Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas-MG, em 28 de maio, durante a Semana de Integração Tecnológica – 8ª SIT 2015. O objetivo do encontro foi mostrar para os produtores a importância do planejamento em todas as fases de produção do leite e, principalmente, mostrar as alternativas de alimentação do rebanho e soluções para período da seca.

Este encontro foi dividido em duas partes: um seminário, realizado no auditório da Embrapa e uma visita técnica às estações da Vitrine de Tecnologias. As atividades foram coordenadas pelo pesquisador do setor de transferência de tecnologia da Embrapa, Ivênio Rubens de Oliveira.

No primeiro debate do seminário, o coordenador técnico estadual da área de bovinocultura, da Emater-MG, Feliciano Nogueira de Oliveira, apresentou o “Cenário atual da pecuária leiteira no contexto mundial”. Ele ressaltou os desafios a serem superados pelos produtores e as oportunidades sinalizadas atualmente pelo mercado no contexto apresentado: “No caso do leite, trata-se de um gênero produzido, demandado e comercializado no mundo inteiro. Como desafios é importante ficarmos atentos a pontos cruciais que nos assegurem espaço no mercado, tais como: produção de leite e de bezerros de qualidade, para o abastecimento das respectivas cadeias produtivas – leite e corte, com matéria-prima de boa qualidade; gestão da atividade para a tomada de decisões e a adoção de tecnologias já disponíveis, como a recuperação de pastagens degradadas por meio da técnica de integração lavoura e pecuária, coerentes ao desafio maior da agropecuária de contribuir na redução dos impactos ambientais geradores de mudanças climáticas e da escassez hídrica”.

“Em 2014, a produção mundial de leite foi de 582.581 mil toneladas de leite. Trata-se de um produto de alto valor nutritivo e biológico, produzido e consumido no mundo inteiro. E isso é uma grande oportunidade de mercado, tendo em vista a grande variedade de produtos processados e industrializados advindos do leite”, disse Feliciano Oliveira.

Feliciano Oliveira informou também que o Brasil produz aproximadamente 35 bilhões de litros de leite por ano, para uma população de 204 milhões de habitantes. Porém, apesar de ser o 5º produtor mundial de leite, existe ainda no país um déficit de, aproximadamente, 8 milhões de litros de leite, pois, de acordo com o Ministério da Saúde, a recomendação de consumo por habitante/ano é, em média, de 207 litros.

Para contribuir e aproveitar esse cenário, o produtor precisa se preparar e ficar atento para cumprir as normas de produção e atender ao mercado consumidor. “No Brasil, vigora a Instrução Normativa (IN) 62, do Ministério da Agricultura, que estabelece os parâmetros de qualidade para o leite e que precisa ser conhecida e cumprida por todos”, afirmou Feliciano. Ele ressalta que “para que o setor seja competitivo na produção, industrialização e na comercialização de produtos lácteos, é preciso que o produtor e todos os demais envolvidos conheçam e façam valer esse normativo, pois do contrário haverá menos qualidade da matéria-prima, menor remuneração pelo produto, menos rendimento industrial e maior risco à saúde pública, gerando, como consequência, menor competitividade, menor ganho financeiro e perda de mercado interno e externo”.

Produção de leite a pasto

O segundo tema abordado no seminário foi apresentado pelo pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Leovegildo Mattos, especialista em nutrição de ruminantes. Ele falou sobre produção de leite a pasto, com ênfase para as opções de sistemas de produção que priorizem o manejo das pastagens, para que os produtores colham sua própria forragem, com redução de custos de mão de obra e economia na aquisição, manutenção e utilização de equipamentos e combustíveis onerosos.

De acordo com Leovegildo Mattos, nas regiões tropicais existe a vantagem de se trabalhar com gramíneas tropicais, muito eficientes no processo de fotossíntese e com elevadíssimo potencial de acúmulo de biomassa. Essa biomassa produzida pelas forrageiras tropicais, se bem manejadas, podem suprir nutrientes para produção de 12 a 13 kg de leite por vaca, por dia, sem a necessidade de utilização de rações concentradas mais caras, pelo menos durante o período chuvoso do ano, ou até durante o período seco, com irrigação. Essa proposta visa, ainda, reduzir os custos de alimentação durante o período seco do ano, com irrigação ou com uma área cultivada com cana-de-açúcar”, afirmou.

O pesquisador ressalta que a cana-de-açúcar proporciona alta produção de sacarose por hectare, quando utilizadas variedades industriais da cultura, pois trata-se de um volumoso mais barato por quilograma de massa. E toda essa produção eficiente de volumosos de cana-de-açúcar e de pasto depende de uma adubação adequada e manejo de corte do canavial na época correta. “Essas ações permitem produzir leite a baixo custo e superar os períodos cíclicos de preços reduzidos, pagos pelo leite ao produtor. Durante o ano os preços oscilam e o produtor deve estar preparado para produzir com custos abaixo do preço recebido (preço do leite na porteira)”, orientou.

Leovegildo Mattos disse que, infelizmente, as atitudes de boa parte dos nossos produtores não priorizam a produção de alimentos e a redução dos custos de produção. Para a maioria, o foco é direcionado para a compra de novilhas ou vacas, a preços que nunca podem ser amortizados com a produção leiteira.

Alternativas para alimentação do rebanho

“Nos três últimos anos, houve grande influência climática nas produções agropecuárias de Minas Gerais, em razão, principalmente, das poucas chuvas ocorridas no período de safra. Este fato acarretou a diminuição na produção de cereais e de forragens para a alimentação de bovinos leiteiros”. A afirmativa é do pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, Epamig, Clenderson Corradi de Mattos Gonçalves, que apresentou o tema “Alternativas para alimentação do rebanho leiteiro na época seca do ano” no seminário da SIT 2015, na Embrapa Milho e Sorgo.

De acordo com o pesquisador, pelos dados coletados na estação meteorológica do INMET, em Sete Lagoas, foi possível observar que a quantidade de chuvas de outubro a março nas safras 2012/2013, 2013/2014 e 2014/2015 foram 51%, 60% e 74%, menores que a média das quatro safras anteriores na região. “Esta falta de chuva acarretou a diminuição na produção de cereais e de forragens para alimentação de bovinos leiteiros, influenciando diretamente na produção de leite”, disse.

Clenderson Gonçalves ressaltou que um bom planejamento para produção e armazenamento de volumoso no período seco é de extrema importância na produção leiteira regional. “Sabemos que em Minas Gerais temos duas épocas bem definidas, sendo uma chamada de período das águas, em que temos chuva e temperatura para bom desenvolvimento das forrageiras, e o período seco, com baixas temperaturas, luminosidades e poucas chuvas, provocando diminuição no desenvolvimento das forragens em torno de 80%. Portanto, além de se preocupar com a forragem, o produtor precisa se preparar para não depender muito do pasto. E o pasto deve estar muito bem preparado e manejado para o período da seca”, pontuou.

Clenderson ressaltou que a utilização da silagem de milho e sorgo, com ênfase para o aproveitamento do amido e para a diminuição da perda de grãos nas fezes dos animais, é uma boa alternativa de alimentos.

“A técnica do milho reidratado pode ser utilizada para armazenamento do milho grão na própria fazenda. Esta tecnologia foi desenvolvida recentemente pelo professor Marcos Neves Pereira, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), e pela pesquisadora da EPAMIG, Renata Apocalypse N. Pereira. Trata-se da conservação de milho, na fazenda, pela reidratação e ensilagem para utilização na alimentação dos animais no período seco em substituição ao milho moído”, comentou.

Clenderson ressaltou também que a utilização da silagem de cana-de-açúcar é bastante benéfica para o rebanho, principalmente pelo grande potencial de produção de matérica seca da cana-de-açúcar por hectare. “É uma ferramenta indispensável quando se pensa em anos menos chuvosos”, disse. Outra opção recomendada pelo pesquisador é usar a silagem de capim e algumas tecnologias que podem aumentar seu valor nutricional para melhor desempenho dos animais. “É uma alternativa interessante quando temos deficiência de espaço e pouca chuva”, afirmou.

Programa Regional de melhoria da alimentação do rebanho leiteiro e premiação das melhores experiências de 2014/2015

O “Programa regional de melhoria da alimentação do rebanho leiteiro e a premiação das melhores experiências de 2014/2015” também foram apresentados no Encontro regional sobre pecuária leiteira, na Embrapa Milho e Sorgo. Nesta etapa, o gerente da Embrapa Produtos e Mercados, escritório de Sete Lagoas, Reginaldo Rezende Coelho, e o Coordenador Técnico Regional da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), Walfrido Machado Albernaz, apresentaram o projeto que trata da promoção e desenvolvimento de cultivares de milho e de sorgo para a produção de silagem na bacia leiteira da região de Sete Lagoas-MG.

Walfrido Albernaz ressaltou que o foco principal deste trabalho na safra de 2014/2015 foi melhorar a produção de silagem e a recuperação de pastagens. “Foram beneficiados 58 produtores em 16 municípios da região de Sete Lagoas. Os produtores receberam insumos e apoio técnico, para testar as cultivares de milho e sorgo da Embrapa”, disse.

Reginaldo Coelho explicou que foram escolhidas 4 cultivares de milho e 3 de sorgo. As cultivares foram inseridas no sistema de produção para que os produtores pudessem avaliar o desenvolvimento da cultivar em uma determinada época de plantio em sua região e observar o comportamento dela. “Com base nessa avaliação, foi verificado o potencial da cultivar para a produção de silagem. Dessa forma a Embrapa poderá posicionar a cultivar para uso ideal na região onde foi testada” disse.

O projeto visa também colocar as empresas produtoras de sementes, licenciadas pela Embrapa, para atender as demandas que surgirem em função dessa indicação. “A primeira etapa do trabalho foi avaliar o rendimento de silagem e a segunda etapa será avaliar a qualidade da silagem no momento da abertura dos silos. Essa qualidade é verificada por meio de análise bromatológica, feita nos laboratórios da Embrapa Gado de Leite (Coronel Pacheco-MG)”, afirmou Reginaldo Coelho.

“As primeiras conclusões já foram colhidas. Percebemos que algumas cultivares já apresentaram resultados positivos, como o milho BRS 1055 e o sorgo BRS 655. Um outro ponto positivo que percebemos foi o comportamento do sorgo na condição de escassez de chuva. O sorgo, mesmo com o veranico, se recuperou com a chegada das chuvas e teve uma boa produção, além de possibilitar a colheita da rebrota”, afirmou o gerente da Embrapa Produtos e Mercados.

Foi desenvolvido um programa regional para melhorar a qualidade e a quantidade de alimentos volumosos, produzidos nas propriedades leiteiras. “Os produtores puderam avaliar o desempenho de cultivares de alto potencial produtivo e recuperar áreas utilizando o sistema de produção Integração-Lavoura-Pecuária (ILP). A produção de silagem obtida terá importância fundamental para a alimentação do rebanho no período da seca. Algumas unidades demonstrativas foram utilizadas para a realização de dias de campo e visitas técnicas, onde os produtores vizinhos puderam conhecer as tecnologias de melhoria da alimentação do gado leiteiro”, ressaltou Albernaz.

O produtor rural Celso Aparecido de Oliveira, de Santana do Pirapama-MG, participou do projeto e teve bons resultados em sua fazenda, onde tem uma criação de gado de leite. Ele planta milho e sorgo para produzir silagem para alimentar o rebanho, além de manter uma pastagem irrigada e de sequeiro. “Gostei muito do acompanhamento dos técnicos da Embrapa e da Emater, que estavam sempre nos dando apoio na propriedade. A produção de leite da fazenda aumentou para cerca de 250 litros por dia, e já tem destino garantido para uma cooperativa”, afirmou.

O projeto foi realizado pela Embrapa, em parceria com a Emater, Epamig, cooperativas de leite Itambé, Cooperativa de Abaeté (Cooperabaeté) e Cooperativa dos Produtores de Pompéu (COOPEL), as licenciadas Riber KWS Sementes e Limagrain Guerra Sementes e empresas do setor agropecuário regional (Agronelli, Treviso, Biogene, Sementes Faria, Pigminas e Adubos Vanguard).

A proposta abrange atualmente 38 produtores em 21 municípios: Papagaios, Baldim, Fortuna de Minas, Maravilhas, Florestal, Santana do Pirapama, Cachoeira da Prata, Esmeraldas, Mateus Leme, Funilândia, Capim Branco, Inhaúma, Pedro Leopoldo, Pequi, Lagoa Santa, São José da Varginha, Sete Lagoas, Bom Despacho, Pompéu, Abaeté e Coronel Pacheco.

Circuito tecnológico

Na vitrine de tecnologias da Embrapa Milho e Sorgo, os participantes do Encontro regional sobre pecuária leiteira visitaram 4 estações.

Estação 1: Tecnologias utilizadas para aumentar a matéria orgânica do solo

Walfrido Albernaz, da Emater, explicou aos visitantes que para aumentar a cobertura do solo podem ser utilizadas práticas vegetativas como o plantio direto; o sistema Integração-Lavoura-Pecuária, em que se utiliza o consórcio de culturas de milho ou sorgo com braquiária; a adubação verde, com feijão-guandu; e a utilização de resíduos orgânicos (cama de frango, compostos orgânicos com componentes variados, tais como casca e ramos de arroz, de feijão, restos de frutas, estercos, serragem, restos de alimentos).

O pesquisador da Epamig, Francisco Morel Freire, ressaltou que o solo mantém um constante processo de decomposição e que o comportamento da matéria orgânica do solo influencia no sistema de manejo escolhido pelo produtor. “Alguns fatores são importantes e precisam ser observados continuamente para manter a matéria orgânica no solo, entre eles o clima e o tipo de solo. Em geral, as taxas de decomposição são maiores com o aumento da umidade do solo e da temperatura, e os solos arenosos não ofertam boas condições para acumular a matéria orgânica. A acidez do solo é um outro fator que também influencia na velocidade de decomposição de matéria orgânica”, explicou.

Estação 2: Gessagem e fosfatagem do solo

O gesso agrícola é aplicado para corrigir a acidez na camada subsuperficial do solo, abaixo dos 20 centímetros de profundidade.

O representante da Agronelli – Insumos Agrícolas, João Donizette do Amaral Júnior, ressaltou que o gesso é um fertilizante condicionador de solos, fonte eficiente de cálcio e enxofre que, além de promover maior desenvolvimento radicular em profundidade, permite a redução da saturação por alumínio. “O gesso agrícola aumenta a eficiência agronômica no aproveitamento dos fertilizantes, promove maior resistência da planta à seca e maior acesso ao volume de água e nutrientes disponíveis no solo”, disse.

Cristiano Moura, agrônomo da Adubos Vanguard, ressaltou a necessidade de se fazer a correção do solo e a adubação adequada para cada tipo de cultura. “O fósforo é um macroelemento mais caro e deve ser colocado bem no fundo da cova, antes do plantio. Mas primeiro é preciso fazer a correção do solo, para não haver perda do fósforo da planta para o solo”, explicou.

Estação 3 -Seleção de culturas para produção de forragem

Nesta estação, os agrônomos da Embrapa Produtos e Mercados, escritório de Sete Lagoas, Reginaldo Coelho e Sinval Resende Lopes, trouxeram exemplos de plantios de milho e de sorgo para a produção de forragem, no período da seca. Um deles foi apresentado pelo coordenador de Captação de Leite da Cooperativa Itambé, João Paulo Morais.

De acordo com Morais, na Unidade Demonstrativa da Itambé, o plantio de 5 hectares de sorgo foi essencial para garantir a produção de silagem para os touros no período de seca. “O sorgo sofreu com a falta de chuvas, mas teve bom rendimento na safra. E, mesmo não fazendo investimento de insumos para a rebrota, conseguimos colher 40 toneladas.

O representante da Sementes Faria, Erlan Faria, apresentou o milheto como opção de produção de forragem e de silagem. Ele ressaltou que o milheto é uma cultura ideal para fazer a cobertura do solo. “O milheto é muito resistente à seca, e é um excelente descompactador de solo, pois sua raiz chega a 3,5 metros de profundidade”.

Estação 4 – Produção de silagem de qualidade

Nesta estação, o representante comercial da Biogene, Enio Gomes, falou sobre o processo de produção de silagem de qualidade. Ele ressaltou que para produzir uma silagem de qualidade o produtor precisa ficar atento ao momento certo da colheita do grão e fazer a compactação de forma ideal.

O gerente de vendas da Treviso Máquinas, Edmilson Wagner Costa Junior, explicou sobre as linhas de potência dos tratores para corte e trato das culturas, principalmente para milho, sorgo e pastagens. Ele apresentou máquinas e tratores que possibilitam melhores condições de preparação do solo para o plantio e colheita de grãos para silagem.

Sandra Brito (MG 06230 JP)
Embrapa Milho e Sorgo

Telefone: (31) 3027-1223

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Vagner Liberato

Meu nome é Vagner Liberato, sou carioca e vivo no Rio de Janeiro. Formei-me em Administração de Empresas e sou um apaixonado por conteúdo sustentável. Desde 2015 faço o Jornal Sustentabilidade com maior prazer! Para falar comigo, entre em contato pelo email: contato@meioambienterio.com

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