PERISCÓPIO – “Consumidores do mundo, uni-vos! O Natal morreu! Morreu?”

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PERISCÓPIO – “Consumidores do mundo, uni-vos! O Natal morreu! Morreu?”, por Bernardo Carlos Oliveira.

Que maneira melhor teria eu para celebrar o Natal? Comprando. Óbvio! Óbvio? Mesmo que seja apenas um livro, eu pequei. Ou melhor, eu comprei. Confesso que sim.

Festejei o fechamento da Cosac Naify comprando um livro, publicado por ela, que há tempos queria possuir: O suplício do Papai Noel por Lévi-Strauss.

Dias atrás fui convidado por um querido amigo: “escreve para gente sobre consumismo e Natal”. Por este motivo iniciei este diálogo com você, estimado leitor.

Meu amigo obviamente se referia à minha trajetória de pesquisador do consumo. Sim, do consumo, sem essas delongas de antropologia do consumo, sociologia do consumo, comportamento do consumo… Com todo o respeito que as especializações merecem, eu sempre ousei conhecer o todo. Digo ousar porque esse conhecimento total não é possível, é um processo, circular e recursivo.

Voltemos ao suplício do papai Noel. Já notaram como temos costume de antropomorfizar o inumano e coisificar o humano? – Digo nós, os membros da sociedade de consumidores, como diria Bauman. Indiferentemente de nossas posições sociais, temos muitas vezes a tendência de tratar objetos, coisas não humanas como amigos, filhos, parentes etc. Veja o incrível mundo dos pet shops. Sou amante dos bichos. Ainda terei um buldogue!

Papai Noel é humano ou é uma lenda? Não consigo definí-lo como humano e tampouco como mito, acho que se resume nos dois. Ele representa o pai ausente que no final do ano passa esta data em família. É também o mito mercadológico que transforma países tropicais como o Brasil em uma perfeita Escandinávia adereçada de renas e bonecos de neve. Que mal há nisso?

Semanas atrás foi dia de ação de graças, um feriado muito significativo assim como o Natal. Acho-o encantador, pois o agradecimento se põe como uma das mais difíceis virtudes do ser humano na atualidade. Não se compra o agradecimento, apesar de muitas vezes tentarmos nos tornar presentes por meio de presentes.

Várias vezes é possível presenciar a cena: “filho, desculpe, o papai tem ficado até tarde no trabalho, tome esse novo jogo. você vai se divertir muito”, como que querendo dizer que o dispositivo o fará companhia, pois a companhia do papai está custando muito caro. Sem julgamentos de valor, é esse o imperativo desde minha infância, em que muitas vezes a minha babá era a TV e o vídeo game. O que eu adorava enquanto criança. A sociedade da performance está aí nos vigiando e nos tirando o sono.

Imagem: Nasa JPL – Pôr do Sol visto de Marte

Estamos num mundo em que mais e mais mercadorias exprimem sentimentos. Aos policiais de plantão, não é de hoje que utilizamos produtos para nos comunicar. Douglas e Isherwood, em seu extenso trabalho O mundo dos Bens, sobre o consumo já anunciaram: “Os bens são neutros, seus usos são sociais, podem ser usados como cerca ou como pontes”.
E qual o problema nisso? Vários e nenhum. Depende de que posição você fala e para quem você fala. Explico melhor: se você, como eu, tem certa postura crítica sobre o tema saberá que há mais nuances sobre o consumismo do que simplesmente dizer que é tudo culpa da propaganda. Eu diria que é sua, que é nossa. Que é da propaganda.

É um problema do homem pós-moderno, que desvinculado da tradição religiosa caminha cada vez mais ao paganismo. Ou não seria o Natal um evento religioso? Ou seria o Natal mais um acontecimento da sociedade do espetáculo? Depende quem fala e quem ouve.

Voltemos novamente ao suplício do papai Noel, que para mim anda forte e rijo. Vermelho como o sangue, não o sangue de cristo, mas o sangue derramado pelos trabalhadores de Bangladesh, adicionado do sangue derramado na fila da última Black Friday americana. Ah, agora temos a Black Friday brasileira que é mais branca que negra. Sim, você não viu os vários episódios de racismo recentes? És um aluno do Mackenzie? Ou da Unipalmares?

Tudo cada vez mais fluído, se confundindo em sentimentos e percepções controversas e afins.

E é esse o sentimento mais bacana do Natal, a diversidade familiar posta à prova, o individualismo é questionado e o sentimento de culpa tem sua redenção. Ao menos por algumas horas nos esquecemos daquele tio que só falou asneira no whatsApp, daquela dívida do cunhado. Sem contar a tolerância com o namorado surfista. O vovô lá no fundo diria: “é um transviado? Ou é um viado?”

Festeja-se o consumo máximo, num momento de relacionamento intenso nessa celebração anual. Muitos marqueteiros tentam estender esse furor ao demais dias do ano: Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia dos Namorados, Dia das Crianças, Dia da Mulher, Dia do Homem… E então vivenciamos todas as facetas do Natal durante esses feriados, cercados de bens ou não. Cabe uma pergunta: você pensa quando consome algum produto? Dou-lhe alguns minutos de reflexão enquanto lhe conto um breve conto:

“Um dia desse bem cinzento, frio que só, saí em busca de um bom vinho, já era tarde, rodara por toda a cidade, e não encontrava nenhum estabelecimento que me pudesse saciar aquele desejo, aquela sede. Sem pestanejar parei na conveniência que encontrei após longos minutos de agonia, tomei aquele delicioso vinho; de 5 reais”.

Pensou? Refletiu? A pergunta que mais me faço como pesquisador é esta: pensamos ou não quando compramos aquela boneca para nossa filha? Mas ela pediu tanto… Aquele bolo de chocolate? Ai meu deus! Minha dieta! E como Batelby: Eu preferiria não! E nega-se aquele pedaço de bolo, e gastam-se horas e horas na sala do terapeuta. Nada contra terapias, ok?

O ponto a que quero chegar é o seguinte: consumimos a toda hora, durante toda a vida. Desde o nascimento ao funeral estamos consumindo alguma coisa.
A etimologia do consumo o qualifica como o ato de consumir, desgastar algum material ou objeto. Eu acrescentaria tempo e local.

Colin Campbel, num capítulo muito interessante da sua coletânea Acknowledging Consumption, comenta sobre o consumo no turismo e explica as várias etapas dessa prática.

Você faz aquela busca no Decolar, se anima e conta para a esposa: “olha o que eu achei fim de semana em Buenos aires, tudo incluso, e ainda conseguiríamos tomar aquele vinho rosado, dá pra pagar em 10 vezes no cartão”. O casal então, entusiasmado com aquele momento, sem saber ou pensar a respeito já está consumindo mentalmente aquele delicioso fim de semana. É claro que há o consumo de dinheiro, de tempo, e o consumo no local. Contudo, o consumo mental continua, ao ver as fotos, ao se lembrar dos cheiros.

Pausa na escrita. O telefone toca… E que surpresa, hoje tem novena de Natal na casa de meus avós. Ah! A lembrança que me veio: “estou pensando em Deus, estou pensando no amor”. Que momento propício! Estava a escrever este texto sobre consumismo e Natal a você, estimado leitor.

Religiosidade à parte, o que seria o natal se não um momento de amor? Ao final da reza, foram servidos refrigerantes, café e panetone. É o natal sendo celebrado no ato de consumo.

Consumismo, individualismo, globalismo, liberalismo e todos os ismos que de certa forma preenchem o nosso dia-a-dia. Caso cortemos estes ismos não solucionaríamos o problema maior que é questão de reflexão. É de ponderação. O consumismo não é uma doença sem causa e tampouco onipotente. Por uma reforma do consumo. Por uma nova sociabilidade em que produtos continuem como mediadores, não somente como fim. Que se amplifique o conceito de consumo, que o debate se estabeleça, que o suplício não é do papai Noel, é sim de todo um tempo, é o espirito do tempo que está em debate. Que sociedade queremos? Que sociabilidades queremos? Que produtos consumiremos?

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Imagem: Nasa JPL – Pôr do Sol visto de Marte

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Bernardo Carlos de Oliveira, doutorando em ciências sociais pela PUC-SP, é um pesquisador que quer um mundo mais inclusivo e comunitário, mais agregador e fraterno.

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O Novelo – Seção PERISCÓPIO

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