Em uma reflexão satírica sobre a canoagem no Canadá, o comediante e escritor ojibway Drew Hayden Taylor brincou que “cada vez que um não-nativo desce de canoa pelo rio Madawaska ou anda de caiaque em Tobermory, deveria primeiro levar um aborígine para almoçar”. A piada de Taylor ressalta a dívida cultural e histórica que os canadenses têm com os Povos Indígenas pela apropriação da canoa como símbolo nacional.

A Apropriação Cultural da Canoagem

No Dia Nacional da Canoagem no Canadá, celebrado em 26 de junho, a reflexão de Taylor nos convida a pensar em como a canoagem pode ser um meio de reconhecer e reconciliar o passado colonial do país. A canoa, adotada pelos colonos como um símbolo do espírito aventureiro canadense, possui raízes profundas nas culturas indígenas. Este passado é frequentemente ignorado ou subestimado em prol de uma narrativa romântica da natureza canadense.

Construção de Relações com Comunidades Indígenas

Entre setembro de 2021 e abril de 2023, foram entrevistados 37 guias de canoagem para entender como suas práticas poderiam contribuir para a reconciliação. Para esses guias, estabelecer relações sólidas com as comunidades indígenas é fundamental. Isso inclui respeitar protocolos comunitários, promover visitas repetidas e garantir que as comunidades indígenas obtenham benefícios econômicos.

As organizações de canoagem precisam se envolver ativamente com as comunidades indígenas, entendendo suas expectativas de permissões, presentes e compensações. É crucial reconhecer que as comunidades indígenas têm o direito de decidir quando e como receber visitantes em seus territórios.

Reconhecimento dos Direitos Indígenas Sobre Territórios

Mesmo que não passem diretamente por comunidades indígenas, as viagens de canoa atravessam territórios tradicionais indígenas. Os guias de canoagem devem garantir que os participantes reconheçam isso, utilizando nomes indígenas para paisagens e locais. Este simples ato pode reconfigurar a percepção dos lugares que os remadores visitam, sublinhando a importância dos usos históricos e contemporâneos desses territórios pelas comunidades indígenas.

O mapa “Ancient Trails of Temagami”, de Craig Macdonald, é um exemplo de como os nomes indígenas podem ser integrados, destacando o uso prolongado da terra pelos povos indígenas.

Desmistificando a Noção de “Deserto”

A descrição de terras como “desertas” apaga a presença e a administração contínua das comunidades indígenas. Locais populares para a canoagem, como o Parque Provincial Algonquin, foram moldados pela expropriação de terras indígenas, vistas pelos colonos como espaços selvagens e desabitados.

Guias de canoagem que participaram das entrevistas estavam cientes da necessidade de evitar essa narrativa. Em vez disso, eles destacavam exemplos de gestão indígena de ecossistemas, como os campos de arroz selvagem, que são frequentemente geridos por gerações para melhorar as colheitas.

Buscando Permissão para Acessar Terras Indígenas

A canoagem, assim como a extração de recursos, depende do acesso a terras indígenas. Para apoiar a reconciliação, as organizações de canoagem devem buscar consentimento para viajar por esses territórios. Este processo deve ser conduzido conforme os desejos das comunidades indígenas, e não imposto unilateralmente pelas organizações.

Reconhecendo a Desapropriação Colonial

O historiador Patrick Wolfe argumenta que o colonialismo não é um evento passado, mas uma estrutura que continua a moldar relações desiguais hoje. A capacidade de canoagem nos rios e lagos canadenses depende da expropriação das terras dos Povos Indígenas. Sem reconhecer essas histórias, perpetuamos o colonialismo.

Caminhos para uma Canoagem Respeitosa

Para garantir que a canoagem respeite e reconheça a autoridade indígena, as organizações de canoagem devem:

  • Estabelecer e manter relações sólidas com as comunidades indígenas.
  • Reformular a narrativa do “deserto” e reconhecer a presença histórica indígena.
  • Buscar permissão e consentimento para acessar terras indígenas.

Seguindo essas diretrizes, podemos honrar a tradição da canoagem enquanto reconhecemos e respeitamos os Povos Indígenas que têm cuidado dessas terras por gerações.

Fonte: A Conversa

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