A Amazônia brasileira é tema-chave nas negociações para o enfrentamento da crise climática global na COP27, a Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Dados do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases do Efeito Estufa) mostram que o bioma concentra 77% das emissões por mudança de uso da terra no Brasil, ligadas, principalmente, ao desmatamento e ao fogo associado, tendo emitido 911 milhões de toneladas de gases do efeito estufa em 2021. Pesquisadoras no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) destacam que tais fatores apontam as prioridades para o fortalecimento de políticas socioambientais no país.

“O dado indica um caminho claro para a redução de emissões de gases do efeito estufa no Brasil. Temos que acabar com as emissões provenientes do desmatamento. Se não combatermos a derrubada das florestas, principalmente na Amazônia, todas as outras estratégias de mitigação nacionais serão em vão”, avalia Bárbara Zimbres, pesquisadora no IPAM e responsável pelo cálculo de emissões de gases do efeito estufa por mudanças de uso da terra no Brasil do SEEG.

Na COP27, o Brazil Climate Action Hub organiza o painel “A década perdida das emissões brasileiras: o que revelam 10 anos de estimativas anuais feitas pela sociedade civil” em 9 de novembro, das 10h às 11h no horário de Sharm El Sheik, no Egito, cidade que sedia a conferência neste ano, e das 5h às 6h no horário de Brasília. Participam Tasso Azevedo, coordenador técnico do Observatório do Clima e coordenador geral do SEEG; Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo; Marina Piatto, diretora executiva do IMAFLORA; e David Tsai, gerente de projetos do IEMA.

Emissões amazônicas

Análise do IPAM a ser apresentada na COP27 calcula que Pará, Amazonas e Mato Grosso são os estados amazônicos que mais emitiram gases do efeito estufa em 2021: foram 640 milhões de toneladas de carbono equivalente, ou 70% das emissões brutas por mudanças de uso da terra da região. A medida do carbono equivalente representa a soma do efeito superaquecedor de todos os tipos de gases do efeito estufa na atmosfera. Já os maiores aumentos de emissões entre os estados da Amazônia, de 2020 para 2021, ocorreram em Amapá (266%), Tocantins (185%), Roraima (124%) e Maranhão (114%).

Por conta da fumaça de queimadas associadas ao desmatamento, a aldeia Afukuri, no Território Indígena do Xingu, sudoeste da Amazônia, registrou uma qualidade do ar 53 vezes pior do que o indicado como aceitável pela OMS (Organização Mundial da Saúde) na segunda quinzena de setembro deste ano. O povo Kuikuro ficou exposto 17 horas por dia à concentração de 795 microgramas de material particulado de fumaça de queimadas e poluentes, por cada metro cúbico de ar. A recomendação internacional estabelece esse limite até 15 μg/m³ para não prejudicar a saúde.

No total, o bioma Amazônia teve alta de 17% nas emissões brutas entre 2020 e 2021. De 2017 para 2022, chega a 65% o crescimento das emissões brutas da Amazônia brasileira. As emissões brutas são o resultado de tudo o que é emitido, sem considerar os gases de efeito estufa que são removidos da atmosfera pela vegetação nativa ou regenerada em áreas protegidas como as unidades de conservação e as terras indígenas.


“A COP27 é uma oportunidade para chamarmos a atenção do mundo à situação de ameaça em que se encontra hoje a maior floresta tropical do planeta e ao que podemos fazer efetivamente para reduzir de forma imediata as emissões que provocam o superaquecimento global”, comenta Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo.


Maior alta em 19 anos

Dados divulgados pelo SEEG no início de novembro revelaram o maior aumento em 19 anos das emissões no Brasil. Em 2021, o país emitiu 2,42 bilhões de toneladas brutas de carbono equivalente – um aumento de 12,2% comparado ao ano anterior, em que foram emitidas 2,16 bilhões de toneladas. Todos os biomas tiveram mais emissões causadas por desmatamento, com expressividade na Mata Atlântica (65%), seguida pela Amazônia (17%) e pelo Pantanal (15%). No Cerrado o aumento foi de 4%, na Caatinga e no Pampa, de 3%.

O Brasil está entre os maiores poluidores do mundo: é o 4° que mais emitiu gases do efeito estufa desde 1850. O comprometimento e atuação do país em metas climáticas mais ambiciosas são vistos pela comunidade científica como fundamentais para cumprir o Acordo de Paris, firmado em 2015 por 196 países, e limitar o aumento da temperatura média do planeta em 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Eventos climáticos extremos na história recente refletem o superaquecimento global que está em 1,1°C. De acordo com relatório das Nações Unidas, com a falta de progresso e a implementação somente das metas atuais, o planeta está a caminho de uma elevação de até 2,8°C. Um aumento de 2°C teria como consequência global até 14 vezes mais ondas de calor e 70% mais secas, segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).


Além do setor de mudanças de uso da terra, o SEEG calcula as emissões brasileiras por agropecuária, energia, processos industriais e resíduos (sólidos e líquidos, provenientes do processo de tratamento de lixo, por exemplo). Praticamente todos os setores tiveram alta: 3,8% na agropecuária; 12,2% no setor de energia, a maior alta desde 1973; e 8,2% no setor de processos industriais e uso de produtos. O setor de resíduos foi o único com emissões estáveis de 2020 para 2021. Os números podem ser acessados no site da iniciativa.