por Beatriz Busti*
 

A Amazônia, maior floresta do mundo, exibe em seus quase 7 milhões de quilômetros quadrados a maior diversidade biológica do planeta. Os pesquisadores já catalogaram mais de 1,5 milhão de espécies, mas ainda não chegaram nem na metade. A região, que impressiona pela sua riqueza natural, é um berço importante de espécies endêmicas e responsável pela regulação do clima global. É a umidade da Amazônia, por exemplo, que proporciona as chuvas que regam as lavouras do centro oeste, que alaga o pantanal e que ameniza a poeira da poluição paulista. 

Além disso, o maior tesouro escondido da Amazônia é o carbono. A floresta é responsável por armazenar quase 20% do carbono vegetal do planeta, que fica estocados nas camadas orgânicas do bioma, como os tecidos vegetais e solos, por exemplo. Isso é importante porque os vegetais são os responsáveis por sintetizar o gás carbônico em oxigênio, mantendo o equilíbrio na atmosfera. 

Desde a revolução industrial e o início da exploração do petróleo, a humanidade tem liberado muito mais gás carbônico do que os vegetais conseguem sintetizar. Nessa linha, os professores e cientistas da Universidade de Exeter, na Inglaterra, publicaram um estudo alertando que, com o avanço do desmatamento da Amazônia, o bioma já perdeu a capacidade de regeneração em três quartos de sua extensão, correndo o risco de se tornar savana em apenas algumas décadas. O mesmo estudo apontou ainda que, no ritmo atual de desmatamento e queimadas, a Amazônia perderia sua função de captura de carbono, uma vez que sua capacidade de absorção será menor que as emissões oriundas das queimadas e dos processos naturais de decomposição. 

Já um estudo publicado pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) mostrou que o desmatamento na região Amazônica foi 56,6% maior entre agosto de 2018 e julho de 2021, comparado ao mesmo período entre 2015 e 2018. As áreas de floresta pública, ou seja, aquelas cujo dever de realizar a segurança e a proteção é do Governo Federal, foram as mais afetadas e, no último ano, concentraram um terço de todo o desmatamento da Amazônia. 

Durante a reunião da ONU (Organização das Nações Unidas) realizada em 2012, no Rio de Janeiro, os países designaram uma agenda de objetivos de desenvolvimento sustentáveis até 2030, com o propósito de frear as mudanças climáticas, acabar com a fome e a desigualdade e promover o desenvolvimento econômico e tecnológico mundial de forma sustentável, justo e equivalente. O Brasil tem relevância para que as metas da ONU sejam atingidas e, dentre elas, está a contenção do desmatamento e das mudanças climáticas. 

As consequências da degradação do meio ambiente os brasileiros já conhecem. Nos últimos anos, com as queimadas ocorridas no Pantanal e na Amazônia, São Paulo viu o “dia virar noite”, com céus avermelhados, ar difícil de respirar e o tráfego aéreo comprometido. Houve também alteração no regime de chuvas. No sul do País, a falta delas causou perdas de safras e um clima difícil para as culturas mais sensíveis. Já o excesso delas provocou desastres difíceis de esquecer, levando chuvas torrenciais atípicas para Petrópolis, no Rio de Janeiro, e em cidades do Pernambuco, somando mais de 360 mortes e 7 mil desabrigados. 

Para a economia, isso significa dizer que as alterações climáticas apareceram como um dos fatores que resultaram no aumento de preços dos produtos no mercado, levando 1,8 milhão a mais de famílias para a extrema pobreza. 

A proteção de terras e culturas indígenas, o desenvolvimento de políticas públicas para o incentivo à preservação do meio ambiente, o fortalecimento dos órgãos de proteção, a educação ambiental, os estímulos econômicos para empresas que adotam as boas práticas ambientais e a real punição dos que proporcionam o desmatamento ilegal e as queimadas são as ferramentas, em âmbito público, capazes de garantir a saúde do bioma, fator fundamental para a manutenção do clima da Terra. 

No âmbito privado também é possível fazer a diferença na questão ambiental. É de grande relevância que os brasileiros impulsionem a indústria para fornecer produtos mais sustentáveis e com selos de Desmatamento Zero, praticando o consumo consciente, isto é, levando em consideração não só o desejo da compra em si, como também o processo produtivo, seu caminho até as prateleiras e o descarte dos resíduos depois do uso. 

Cientistas no mundo todo têm alertado sobre os perigos de um mundo mais quente. Ao fim desta década teremos o diagnóstico sobre o quanto conseguimos avançar nos esforços de controle do aumento de temperaturas. Dados e estudos têm mostrado que a ciência tem tudo a ver com as políticas públicas e é indispensável para navegar no mundo da crise climática. Por isso, quem ganhar as eleições em 2022 terá também um grande desafio, afinal, serão eles, nossos representantes no Legislativo e no Executivo, os responsáveis pela elaboração das políticas públicas e do fortalecimento de controles que definirão nosso futuro socioambiental.

*Beatriz Busti é consultora pleno de Sustentabilidade da Protiviti, empresa especializada em soluções para gestão de riscos, compliance, ESG, auditoria interna, investigação, proteção e privacidade de dados.