*Por Ana Paula Barbosa de Almeida
 

A ONU, no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, publicado em abril de 2022, afirmou que 2025 é o limite para que a média das emissões de gases do efeito estufa comece a cair e seja evitada uma catástrofe climática. O compromisso do estado brasileiro é de restaurar 12 milhões de hectares até 2030, o equivalente a quase três vezes o tamanho do estado do Rio de Janeiro, para que o país seja capaz de atingir a sua meta de mitigação às mudanças climáticas prevista no Acordo de Paris.

No entanto, o país vem enfrentando cada vez mais desafios para alcançá-las. Até março de 2021, o Brasil não havia alcançado 1 milhão de hectares restaurados e, ainda mais preocupante, o desmatamento da Amazônia Legal em 2022 foi o maior dos últimos 15 anos, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Cientistas de diversas nacionalidades já entendem esse cenário e alertam sobre a aproximação ao “tippint point”, em que o ambiente amazônico estará irreversivelmente alterado.

É nesse contexto que as iniciativas de floresta em pé ganham relevância. O cenário de perda florestal causado pelo desmatamento ilegal cada vez mais presente nos últimos anos, somada à desigualdade social evidente na região, destaca o modelo de desenvolvimento insustentável da Amazônia e reforça o ciclo de pobreza e perdas ambientais que afetam a economia de todo o país.

Resumidamente, o termo “Floresta em Pé” é referido como o modelo econômico que se estabelece por meio de iniciativas que fortalecem a bioeconomia de uma área florestal, com foco na conservação ambiental da flora. Em outras palavras, se refere às atividades que estimulam a economia das populações locais utilizando a floresta como fonte de renda e, simultaneamente, conservando sua existência ao longo do tempo.

Mas como podemos provar que a floresta em pé tem maior valor econômico, que derrubada? Para isso, a construção de um plano que consiga expor a viabilidade da manutenção da floresta do ponto de vista econômico é de extrema importância, e é nesse ponto que ferramentas como a Teoria da Mudança reforçam seu papel. A metodologia propõe qe responsáveis por negócios, projetos ou atividades de impacto florestal em questão precisarão se unir e estruturar ações, indicadores e quais os resultados obtidos.

A Teoria da Mudança nada mais é que a conexão entre as atividades previstas no projeto ou negócio e o objetivo socioambiental buscado. A construção e preenchimento desse pensar é muito interessante porque é a partir dela que podemos definir indicadores de avaliação do impacto produzido, identificar grupos afetados pelo projeto e medir os resultados. Além disso, a ferramenta tem grande valor em situações complexas como a do cenário amazônico, pois auxilia na priorização de ações.

Muitas organizações presentes no território amazônico já utilizam estas metodologias. Em 2021, o Fundo Vale, de fomento e investimento para geração de impacto socioambiental positivo, divulgou uma Teoria da Mudança para alcançar seus objetivos de 2030 que buscam, entre outras metas, soluções sustentáveis no território amazônico.

Outro exemplo é a Teoria da Mudança elaborada pela Idesam, ONG de impacto na Amazônia, que utilizou a ferramenta para revisar sua estratégia após os desafios pandêmicos da Covid 19 e traçar um caminho com impacto relevante na região de 2022 até 2026.

A criação de modelos de negócio robustos e sustentáveis financeiramente é um dos maiores desafios de atividades de impacto e é por isso que o uso de ferramentas como a Teoria da Mudança são de extrema relevância para comprovar que iniciativas de uso e preservação da floresta são economicamente, ambientalmente e socialmente viáveis. A urgência amazônica demanda uma maior disseminação e uso de ferramentas assim para mostrar, na prática, que a floresta em pé vale mais que derrubada.

*Ana Paula, é analista de sustentabilidade aplicada na Fundação Espaço Eco