Crédito: imagem gerada por IA

Nos últimos anos, as tecnologias de inteligência artificial (IA) têm avançado a passos largos, transformando vários aspectos da nossa vida cotidiana e levantando questões profundas sobre o futuro da criatividade humana. A cada nova geração de modelos de IA, como o ChatGPT, surgem afirmações grandiosas sobre sua capacidade de criar, inovar e até mesmo superar os humanos em áreas tradicionalmente dominadas pela nossa engenhosidade.

Lindsay Brainard, Ph.D., professora assistente do Departamento de Filosofia da Universidade do Alabama em Birmingham (UAB), tem se debruçado sobre essas questões. Em seu artigo publicado recentemente, intitulado “O Curioso Caso da Criação Pouco Curiosa”, Brainard explora a verdadeira natureza da criatividade em modelos de IA e se questiona se eles podem realmente substituir a criatividade humana.

O Que É Criatividade?

Para entender se a IA pode ser considerada criativa, é fundamental definir o que significa ser criativo. Brainard propõe que a criatividade envolve não apenas a capacidade de gerar coisas novas e valiosas, mas também a presença de curiosidade.

“Se a criatividade é simplesmente a capacidade de gerar coisas novas e com valor, então modelos como o ChatGPT poderiam se qualificar”, argumenta Brainard. No entanto, ela ressalta que a curiosidade – um aspecto essencial da criatividade – está ausente nos modelos atuais de IA. “A curiosidade é o que impulsiona a exploração e a inovação genuínas, algo que as máquinas, até agora, não conseguem replicar”, explica.

A Criatividade Humana Está Ameaçada?

Com a capacidade das máquinas de produzir textos, músicas e até mesmo obras de arte impressionantes, muitos se perguntam se a criatividade humana está em risco de se tornar obsoleta. Brainard adota uma visão otimista e argumenta que, embora a IA possa apoiar e até ampliar a criatividade humana, ela não pode substituí-la completamente.

“Considere a questão de saber se esses modelos de IA podem tornar obsoleta a criatividade humana nas artes e nas ciências”, escreveu Brainard. “Embora esses modelos não sejam criativos em si mesmos, defendo que isso é improvável de acontecer. A criatividade humana possui qualidades que os modelos atuais de IA não conseguem alcançar.”

Aspectos Únicos da Criatividade Humana

Em seu próximo artigo, Brainard planeja explorar quatro aspectos em que a criatividade humana possui um valor único que, segundo ela, não pode ser alcançado pela IA contemporânea ou por suas futuras iterações. Esses aspectos incluem:

  1. Originalidade: A capacidade humana de criar algo verdadeiramente novo e inusitado, que não se baseia apenas em padrões e dados pré-existentes.
  2. Autocultivo: O desenvolvimento pessoal e a autoexpressão que emergem do processo criativo, algo intrinsecamente ligado à experiência humana.
  3. Conectividade: A habilidade de estabelecer conexões profundas e significativas através da criatividade, seja em forma de arte, música ou escrita.
  4. Imaginação: A faculdade de visualizar mundos, conceitos e ideias que não existem no mundo físico ou nos dados históricos, um processo que vai além da simples recombinação de informações existentes.

O Dilema da Educação Criativa

Brainard também levanta uma questão crucial sobre o futuro da educação em um mundo cada vez mais dominado pela IA. “Devemos continuar a incentivar nossos alunos a serem criativos?”, questiona ela. Com os avanços contínuos na IA, há um risco de que o desenvolvimento da criatividade humana seja negligenciado em favor de habilidades que complementam ou supervisionam o trabalho das máquinas.

Para abordar essas preocupações, Brainard e seu colega Joshua May, Ph.D., também professor de filosofia na UAB, estão desenvolvendo um novo curso sobre a ética da IA. Previsto para estrear na primavera de 2025, o curso pretende explorar as implicações filosóficas e éticas do avanço da IA na sociedade.

O Futuro da Criatividade em um Mundo com IA

Embora a IA esteja se tornando uma ferramenta poderosa para suporte criativo, Brainard acredita firmemente que a criatividade humana continua a ser insubstituível. A capacidade de ser curioso, de se autodesenvolver e de imaginar coisas que nunca existiram são qualidades únicas que definem a experiência humana e que os modelos de IA ainda não conseguem replicar.

“A IA pode nos ajudar a explorar novas fronteiras e a inovar de maneiras que antes eram impossíveis”, afirma Brainard. “Mas a essência da criatividade humana – a curiosidade e a capacidade de ver o mundo de maneiras que as máquinas não podem – é algo que permanecerá exclusivamente humano.”

Em um mundo onde a tecnologia de IA continua a evoluir, o papel da criatividade humana pode se transformar, mas não será substituído. A integração de IA e criatividade humana pode, de fato, levar a novas formas de inovação, onde ambos se complementam de maneiras que antes eram inimagináveis.

À medida que continuamos a explorar o potencial da IA em nossa sociedade, é essencial reconhecer e valorizar a criatividade humana. A combinação do poder computacional da IA com a profunda curiosidade e imaginação humanas tem o potencial de abrir novas fronteiras de inovação e descoberta. Ao invés de ver a IA como uma ameaça à nossa criatividade, devemos enxergá-la como uma ferramenta poderosa que pode amplificar nosso próprio potencial criativo, mantendo sempre em mente que a essência da criatividade – a curiosidade e a capacidade de imaginar o impossível – permanece inextricavelmente ligada à experiência humana.

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