Outono deve amenizar epidemia de Dengue, mas calor continua

Augusto José Pereira Filho*

O outono brasileiro começa esta semana – as condições mudam para as típicas de outono nesta sexta-feira (22/03) – e saber que tipo de clima nos espera é uma expectativa, especialmente de tanta chuva e calor intenso, que causaram vários transtornos nos últimos dias. Um deles é a epidemia de dengue, que fez com que a Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo decretasse estado de emergência no início de março. Sobre isso, um alívio: o volume de chuvas será menor neste outono, prognóstico que deve diminuir a proliferação do Aedes aegypti, já que ele precisa de chuvas não muito intensas, mas regulares, e temperaturas elevadas para se desenvolver.

No entanto, menos chuva não é exatamente uma boa notícia, principalmente porque o calor deve continuar, pelo menos neste início de estação. E com o tempo seco, a sensação pode ficar ainda mais desagradável, especialmente em ambientes cada vez mais urbanizados, verticalizados, sem circulação de ar e com pouco verde, como é o caso das grandes cidades. Especialmente porque este é um ano de alta atividade solar, o que também contribui para o aumento da temperatura. As previsões meteorológicas apontam para uma tendência de chuvas muito abaixo do normal do sul da Amazônia até as regiões Centro-Oeste e Sudeste. Com exceção da região Sul, as temperaturas também devem continuar acima do normal para o outono, embora já comecemos a sentir algum alívio em relação ao verão.

Os fenômenos El Niño e La Niña também entram na conta. O primeiro, que atingiu o pico em dezembro de 2023, vem enfraquecendo nos últimos meses, mas ainda prevalece neste início de outono, o que contribui para manter as temperaturas elevadas. Mas as previsões sugerem que o La Niña – que, ao invés de aquecer, resfria as águas do Pacífico – deve ganhar força no Brasil no final da estação, o que pode causar seca nas regiões Sul e Sudeste e chuvas com valores acima da climatologia no Norte do Brasil. São Paulo é uma região de transição com tendência a menos chuva em períodos de La Niña, mas, ainda assim, podem ocorrer chuvas intensas e se não nos prepararmos para elas, novos estragos podem ocorrer.

Por tudo isso, precisamos olhar para outro agravante. Apesar das evoluções tecnológicas, ainda faltam sistemas de monitoramento, como radares, satélites e redes de superfície, para medir com precisão a ocorrência de eventos extremos, sejam relacionados às chuvas ou a temperaturas. E, quanto existem, carecem de sistemas de controle de qualidade. Em São Paulo a situação é um pouco melhor, mas para melhorar a previsão é necessário monitorar o país inteiro, incluindo os oceanos e áreas distantes dos grandes centros. Esse tipo de melhoria só é possível com investimentos dos governos, porque ainda têm alto custo de implantação e manutenção.

Esse investimento é muito necessário. Primeiro, porque sem isso, fica difícil antecipar eventos climáticos que colocam em risco a vida da população, aumentando sua vulnerabilidade. Além disso, a meteorologia, que faz parte do Sistema Sistema Confea/Crea, é uma atividade que afeta todas as engenharias, a agronomia e praticamente todas as atividades humanas, desde a dona de casa até grandes empresas. Com previsões melhores, podemos preparar as pessoas e as cidades para lidar com tantas alterações climáticas.

*Augusto José Pereira Filho é diretor-científico da Sociedade Brasileira de Meteorologia e professor-sênior do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP) ex-conselheiro e inspetor do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP).