continua após a publicidade

Demanda por projetos de carbono pode aumentar 15 vezes até 2030, exigindo diversificação do segmento 

O Brasil, país que possui o maior potencial do mundo para geração de créditos de carbono, começa a apresentar iniciativas locais para a certificação desses ativos. As empresas nacionais apresentam soluções aos entraves característicos dos processos das certificadoras internacionais. Um exemplo é a Tero Carbon, criada em Manaus, em 2022, que utiliza metodologias exclusivas à realidade brasileira e ferramentas tecnológicas capazes de conferir segurança e agilidade aos processos. 

A certificação e verificação de créditos de carbono é realizada para atestar o real impacto de um projeto específico na mitigação, redução e/ou remoção de CO2 (dióxido de carbono) da atmosfera, um dos gases causadores do efeito estufa. É a partir dessa certificação que os créditos podem ser transacionados no mercado. De acordo com a consultoria McKinsey, o Brasil emite cerca de 5 milhões de créditos de carbono no mercado voluntário por ano, o que representa menos de 1% do potencial do país. A estimativa da consultoria é que esse mercado pode aumentar 15 vezes até 2030 e que o Brasil pode atender 48% dessa demanda. Já segundo a Câmara de Comércio Internacional (ICC Brasil), as receitas provenientes desse setor podem atingir US$ 100 bilhões no mesmo período. 

Apesar dessa relevância, o segmento de certificação de projetos de créditos de carbono brasileiros é dominado por poucas empresas estrangeiras. Levantamento produzido pela ICC Brasil e pela consultoria WayCarbon afirma que 92% dos projetos no país são certificados por empresas provenientes do exterior. Entre os reflexos desse cenário estão os altos custos, precificados em dólar, e os prazos longos para conclusão dos trabalhos, já que a certificação se torna viável apenas a quem detém grande poder econômico e em grandes áreas, que superam os 50 mil hectares. 

A Tero Carbon pretende popularizar esse mercado, por meio da certificação de propriedades com área a partir de cinco hectares, a preços mais competitivos do que os praticados pelas certificadoras internacionais. A empresa utiliza metodologias baseadas nas práticas de Mensuração, Reporte e Verificação (MRV) e métodos reconhecidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU. Seus métodos, entretanto, foram desenvolvidos respeitando as particularidades sociais e dos biomas brasileiros, com o apoio de instituições como a Federação Nacional das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). 

O CEO da empresa, Francisco Higuchi, doutor em Ecologia e Manejo de Florestas Tropicais (UFPR/INPA/ FFPRI Japão) e que possui mais de 15 anos de experiência em projetos florestais e de estimativa de carbono na Amazônia, destaca a importância das iniciativas nacionais. “O Brasil, por ser um país continental, com inúmeras diferenças culturais e de biodiversidade, merece um olhar específico para a sua realidade e para cada região. E, por ser a nação com maior potencial para geração de créditos de carbono, deve assumir um protagonismo”, disse. 

Francisco ressalta que atualmente duas empresas são responsáveis pela maioria das certificações no Brasil. Ele defende que é necessária uma diversificação no segmento. “A existência de mais certificadoras e demais agentes no mercado de créditos de carbono é fundamental para a popularização da área. Deve haver um crescimento significativo nos próximos anos e é preciso um amadurecimento de toda a cadeia, com a entrada de novos atores e mais investimentos. Haverá espaço para todos”, argumenta. 

Qualidade dos ativos

Recentemente, foram levantados questionamentos quanto à qualidade dos créditos de carbono gerados por certificadoras internacionais, envolvendo, inclusive, a duplicidade dos ativos emitidos. No caso da Tero Carbon, a empresa desenvolveu uma plataforma que utiliza uma série de dispositivos de segurança, alguns comumente utilizados pelo sistema bancário, para evitar problemas como esse. Com isso, a empresa confere transparência, rastreabilidade e integridade aos ativos gerados. 

O registro e rastreio do ativo ambiental é feito por meio de NFTs (em inglês, Non-Fungible Tokens), que são disponibilizados na plataforma OpenSea, local onde os interessados podem encontrar as principais informações públicas relacionadas ao projeto e suas transações. A Tero Carbon ainda utiliza a rede pública Blockchain Polygon, para evitar a dupla contagem dos ativos. A tecnologia blockchain armazena dados em blocos interligados em uma cadeia compartilhada. Não é possível excluir ou modificar a cadeia sem o consenso da rede, o que torna o mecanismo inalterável ou imutável. 

O diretor de produto da Tero Carbon, Mateus Bonadiman, conta também que a plataforma confere agilidade às operações envolvendo os ativos digitais. “Nós disponibilizamos uma carteira digital, em que os detentores dos ativos podem realizar as operações com facilidade diretamente na aplicação. Também há procedimentos de redundância e a integração com sistemas consolidados de segurança e transparência, para garantir confiabilidade aos usuários”, destaca. 

Embora o processo de certificação da Tero Carbon seja realizado em ambiente digital, a auditoria também é realizada em campo. As informações fornecidas pelos detentores dos projetos são validadas em uma combinação de análises da equipe técnica in loco, imagens de satélite e dados obtidos de bases oficiais. O objetivo é atestar a veracidade das informações e evitar possíveis fraudes.

continua após a publicidade