Produção de alimentos
Produção de alimentos

Em 1950, o mundo terá 9,8 bilhões de pessoas e 65% dessa população, 6,3 milhões de indivíduos estarão vivendo em áreas urbanas, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Para dar conta de alimentar todos os habitantes do planeta, a produção de alimentos precisa crescer 70% até 2050, conforme a ONU, para evitar a fome catastrófica. Esse é um dos grandes desafios dos países e faz parte dos debates do Dia Mundial das Cidades, que será comemorado no próximo dia 31 de outubro.

A agricultura familiar responde por 80% de toda a produção de alimentos do mundo e é uma aliada do desenvolvimento sustentável, assim como a agricultura urbana. No Brasil, a agricultura familiar gera emprego e renda para cerca de 10 milhões de pessoas. A prática é mais sustentável porque as propriedades familiares substituem menos a mão de obra humana por máquinas, o que traz impacto positivo ao meio ambiente já que a emissão de combustíveis poluentes é menor. Em geral, pequenos agricultores também utilizam menos água e agrotóxicos.

Estudantes de 9 a 11 anos da Escola Lumiar elegeram a alimentação como tema de interesse de um projeto desenvolvido sobre o cotidiano da cidade e o bairro onde vivem, em Pinheiros, no município de São Paulo. Eles vão produzir um documento, que chamaram de carta-proposta, para ser entregue na Prefeitura, com críticas e soluções para a questão alimentar, principalmente nas escolas.

“É uma questão de olhar para o próximo. Como a agricultura familiar impacta a sustentabilidade e como a alimentação adequada impacta o aprendizado, o desenvolvimento escolar e vai impactar no futuro para criar adultos capazes de mudar o mundo. Alimentação é parte importante da cidade. Está tudo muito relacionado. Não se pode compartimentar problemas e soluções porque tudo está muito ligado e a evolução acontece como um todo”, comenta a professora da Lumiar e tutora da turma, Fernanda Gasparini.

Problema e solução

O trabalho pedagógico surgiu do interesse dos alunos em estudar e aprender um pouco mais sobre o espaço em que vivem, segundo a educadora. O foco principal é a escrita da carta, com noções de linguagens, gêneros de texto, pontuação e acentuação, assuntos do currículo dessa faixa etária. Mas o trabalho aborda ainda outras áreas de conhecimento, como a matemática, geografia e biologia.

“Nossa turma gosta de reclamar bastante. Então transformamos essa ideia de reclamar em um propósito”, afirma Fernanda. O nome escolhido para o projeto foi Tomates na Prefeitura. “Cada turma da Lumiar tem um nome e nós somos os gaspachers, de gaspacho, que é como eles me chamam, por causa do meu sobrenome Gasparini. Gaspacho é uma sopa de tomate, então eu sou o gaspacho e eles os tomatinhos”, conta a professora.

O Tomates na Prefeitura tem três braços de ação. O produto final é a carta-proposta, que possibilitou aos alunos o estudo das funções de um prefeito, dos vereadores, a estrutura da administração pública e trabalhando no gênero de linguagem de carta. Embora a escrita seja o braço principal do projeto, dois módulos complementam o trabalho. A matemática contribui para lidar com levantamento de dados, porcentagens, números e construção de gráficos.

A geografia traz conceitos de agricultura familiar, diferença de trabalhos no campo e na cidade, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e também questões espaciais. A turma vai construir um mapa do bairro Pinheiros e trabalhar com divisões por renda e regiões, entre outros temas. O trabalho terá como foco alimentação escolar, agricultura familiar e orgânica. Os estudantes da Lumiar vão entrevistar outros estudantes, pais e responsáveis para levantar as informações.

“Alimentação surgiu de forma natural porque a turma já havia realizado um documentário sobre a origem dos alimentos, que desencadeou esse interesse. Os estudantes passaram a avaliar o que comem e a refletir sobre a alimentação dos estudantes do bairro. Agora querem continuar a investigar a alimentação, no bairro e dentro das escolas”, disse a professora.

Outros problemas

Embora a questão da alimentação tenha se sobressaído no projeto, os estudantes também apontaram o trânsito, buracos de rua e as diferenças da paisagem socioeconômica do bairro, questões sobre as quais querem reivindicar no futuro. A falta de espaços verdes de produção sustentável de alimentos e áreas de lazer para as crianças também chamou a atenção dos pequenos.

Segundo Fernanda, a proposta de integrar educação a vivências práticas dão oportunidade aos estudantes para aprenderem de forma holística. “Trabalhamos conteúdos curriculares e nosso mosaico de habilidades, de acordo com as necessidades da turma, de desenvolvimento e amadurecimento”, alega. Segundo ela, o projeto mobiliza diferentes inteligências, habilidades de linguagem, matemática e geografia, com noções de sociologia e biologia.

O projeto parte do princípio de que as crianças estão atentas ao mundo à sua volta, identificando problemas empiricamente e, a partir daí, investigando e contribuindo com propostas para um bairro melhor para todos. “Os adultos subestimam a capacidade das crianças de solucionar problemas. A Lumiar é um espaço acolhedor e seguro para que os alunos analisem os problemas e possam propor soluções, que podem vir também de esforços conjuntos e habilidades distintas”, afirma a professora.

Segundo Fernanda, o trabalho possibilita uma troca rica de conhecimento, fomentando o pensamento crítico. “Os alunos dão conta sozinhos de conduzir os processos. Os educadores estão ali para guiá-los”, diz. Ela comenta que os estudantes estão articulando um encontro na Prefeitura para entregar a carta-proposta.