A seca extrema que assola a África Austral está colocando mais de 30 milhões de pessoas em risco de insegurança alimentar severa e desafios humanitários críticos. As agências da ONU e os governos da região alertam que a situação exige soluções inovadoras e um financiamento de emergência para evitar uma catástrofe humanitária de larga escala.

Impacto do El Niño e Mudanças Climáticas

O fenômeno climático El Niño, que começou em julho de 2023, levou a um déficit de precipitação significativo e temperaturas até cinco graus acima da média em toda a região. Fevereiro de 2024 foi registrado como o mais seco em um século, recebendo apenas um quinto da precipitação habitual. Este déficit hídrico é particularmente devastador em uma área onde 70% da população depende da agricultura de sequeiro para sobreviver, de acordo com o Programa Alimentar Mundial (PAM).

Durante uma reunião em Pretória, na África do Sul, no dia 5 de junho, as agências da ONU destacaram que o tempo para agir está se esgotando rapidamente, com previsões de falhas generalizadas nas colheitas que poderiam desencadear uma crise humanitária sem precedentes.

Realidade Devastadora para os Agricultores

Wikala Kaideni, um pequeno agricultor da vila de Lekerenji, no distrito de Chikwawa, no sul do Malawi, compartilha a dura realidade enfrentada por muitos na região. “Em uma temporada normal, colhemos pelo menos 30 sacos de milho. Este ano, a seca destruiu toda nossa plantação na fase de floração”, relata Kaideni ao SciDev.Net, ao lado de sua esposa e de seu bebê de 7 meses. “O milho secou completamente e não colhemos nada.”

A crise já levou os governos do Malawi, Zâmbia e Zimbábue a declararem estados de desastre nacional. No Malawi, considerado um dos países mais afetados, são necessárias estratégias urgentes e inovadoras para aumentar a produção de alimentos e criar resiliência entre as comunidades.

Irrigação e Inovação Como Soluções Críticas

Uma das soluções apontadas é a expansão da irrigação em toda a região, considerada crítica pelo PAM, mas que enfrenta dificuldades devido à escassez de financiamento. Moses Chimphepo, diretor de preparação e resposta do Departamento de Gestão de Desastres do Malawi, destaca a importância da agricultura irrigada. “Estamos explorando a irrigação como uma solução fundamental, mas também estamos cientes da necessidade urgente de assistência humanitária para fornecer alimentos ou transferências de dinheiro para as famílias afetadas”, explica Chimphepo ao SciDev.Net.

Apoio da ONU e Estratégias de Longo Prazo

O impacto do El Niño está agravando os efeitos da crise climática no Malawi, que já foi severamente impactado por tempestades tropicais e ciclones nos anos de 2022 e 2023. Rebecca Adda-Dontoh, coordenadora residente da ONU para o Malawi, ressalta que as comunidades estão sendo envolvidas em atividades de gestão de bacias hidrográficas, incluindo a construção de barragens e a regeneração de árvores. “Essas iniciativas são essenciais para construir resiliência contra choques futuros”, afirma Adda-Dontoh.

A ONU está comprometida em apoiar o Malawi e outros países afetados pelo El Niño, visando cultivar árvores e posicionar as comunidades para acessar créditos de carbono como uma estratégia de longo prazo. “Esta abordagem ajudará as comunidades a se adaptarem às mudanças climáticas e a reduzirem sua vulnerabilidade a futuros desastres”, explica Adda-Dontoh.

Ação Imediata e Apoio aos Pequenos Agricultores

Reena Ghelani, secretária-geral adjunta da ONU e coordenadora da crise climática para a Resposta ao El Niño, enfatiza a necessidade de ação imediata. “Estamos vendo uma seca terrível, mas também oportunidades para inovação. Devemos agir agora para enfrentar este desastre crescente”, declara Ghelani. Ela destaca a importância de capacitar os pequenos agricultores, especialmente as mulheres, com práticas agrícolas resilientes e acesso a mercados.

A situação na África Austral é uma lembrança urgente da necessidade de intervenções imediatas e estratégias inovadoras para lidar com os desafios das mudanças climáticas e garantir a segurança alimentar no futuro.

Fonte: Charles Pensulo, SciDev.Net.

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