Amazônia se torna reduto de startups de bioeconomia

Do caviar de tambaqui ao bioplástico de açaí ou castanha-do-brasil, as demandas de soluções no contexto da mudança climática, com a manutenção da floresta em pé, impulsionam o crescimento do número startups de bioeconomia na Amazônia Legal acima da média nacional. Ao atrair jovens empreendedores e empreendedoras que aliam renda e propósito de impacto socioambiental positivo, o cenário demonstra uma contínua expansão de investimentos e maior maturidade dos negócios inovadores na região, refletida no sucesso das boas ideias que chegam ao mercado. 

“Evoluímos na consolidação do ecossistema de pesquisadores em instituições de ciência e tecnologia, empreendedores e financiadores que olham para as diferentes etapas de desenvolvimento dos negócios”, afirma Paulo Simonetti, líder de captação e relacionamento com o investidor do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio). 

Como política pública que investe em startups recursos obrigatórios de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) que as empresas da Zona Franca de Manaus são obrigadas a repassar, a iniciativa acumula R$ 128 milhões em aportes – no total de 37 empresas investidoras. Atualmente, há 24 projetos inovadores em execução nos estados do Amazonas, Amapá, Roraima, Rondônia e Acre. 

O valor médio dos investimentos do programa, voltado a inovações já desenvolvidas que precisam se aperfeiçoar para chegar às prateleiras, é de R$ 1,2 milhão – em alguns casos, superior em relação a outras regiões do País, devido às peculiaridades da Amazônia, como os desafios de logística e acesso a mercados.

“Há quatro anos, antes do surgimento do PPBio, o cenário das startups de bioeconomia se encontrava em fase bastante embrionária; eram poucos empreendedores e não existiam muitas oportunidades de recursos ou um agente capaz de promover a conexão de novos negócios com as comunidades amazônicas de forma sustentável”, analisa Simonetti. 

Cenário amazônico mostra maturidade

Mapeamento realizado pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), ONG que coordena o PPBio, identifica a existência de pelo menos 204 startups de bioeconomia na Amazônia Legal. Os setores vão de negócios com extrativismo e agricultura sustentável à restauração florestal, aproveitamento de resíduos, piscicultura e créditos de carbono, entre outras atividades. Segundo Simonetti, “as startups de bioeconomia fortalecem uma relação com as comunidades amazônicas, aproveitando as oportunidades dos produtos regionais em roupagens mais tech, como novos cosméticos e alimentos funcionais, absorvidos pelo mercado com o apelo da natureza e da Amazônia”. 

Com produtos de alto valor agregado, acrescenta Simonetti, também surge a necessidade de uma cadeia produtiva que contenha serviços mais adequados para demandas do mercado, como rastreabilidade e compra direta de comunidades. 

De acordo com dados da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), a Região Norte reúne 5% das startups brasileiras dos vários setores de negócios, com investimento médio de R$ 850,5 mil. No caso da bioeconomia, a expectativa é de crescimento exponencial, diante das atenções do mundo para a Amazônia e a necessidade de reduzir desmatamento, gerar renda baseada na natureza bem conservada e garantir qualidade de vida às populações locais. “Quando essas novas oportunidades chegarem, encontrarão um ecossistema já preparado”, estima Simonetti. 

A tendência de crescimento ocorre na esteira da retomada do Fundo Amazônia, além de novos recursos da cooperação internacional e de fundos privados. Políticas federais já anunciadas para aumento considerável de recursos à ciência e tecnologia na região devem fortalecer a inovação em universidades e centros de pesquisa com viés de transferência para o mercado.

A reestruturação do Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), em Manaus; a expansão dos projetos financiados pela Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII) na região; o recente lançamento de novos mecanismos de financiamento do BNDES e a crescente demanda do Inova Amazônia, programa do Sebrae voltado a startups de bioeconomia, são indicativos do amadurecimento que poderá elevar a escala da atividade no contexto da busca por uma nova economia, menos emissora de carbono e mais inclusiva. 

Novidades nas vitrines

O portfólio do PPBio, com cerca de 400 projetos em banco, reflete a tendência das novidades que chegam ao mercado. “Além de aumentar a renda na floresta, a inovação transforma em produto nobre resíduos orgânicos descartados no ambiente”, explica o biólogo César Oishi, CEO da startup Amanayra, criadora do “caviar amazônico”. À base de ovas de peixes regionais, principalmente tambaqui, produzidas nos tanques de piscicultura, o produto pretende explorar o conceito de “amazonidade” em pratos de alta gastronomia e restaurantes de culinária oriental. Após investimento da empresa de eletrônicos Foxconn, de Manaus, a meta é produzir 100 quilos mensais, com selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF), necessário à comercialização. 

No mercado vegano e de produtos naturais, a startup Terramazônia aposta nos resíduos da castanha-do-brasil para oferecer alimentos funcionais inovadores, com vantagens em relação às opções convencionais. Na forma de pó proteico, o produto amazônico – rico em selênio, com ação anti-inflamatória – representa uma fonte alternativa de proteína vegana para o mercado, hoje dependente da soja, ervilha, milho e arroz como matéria-prima. 

Entre os novos produtos da biodiversidade, está o bioplástico que começa a ser produzido pela startup AGJTech a partir do caroço do açaí descartado por agroindústrias em Manaus. O material será utilizado para compor peças de bicicleta na indústria Ox da Amazônia, fabricante da marca Oggi, com investimento de R$ 1,1 milhão na tecnologia.

Fonte: PPBio