Por Enrico Milani*

Tragédia e fracasso são apenas algumas das palavras que a imprensa está usando para se referir àquilo que se transformou a agricultura orgânica no Sri Lanka, apenas um pedaço do colapso econômico e social do país, que levou à derrocada do presidente Gotabaya Rajapaksa.

Uma das promessas de Rajapaksa durante a campanha presidencial, em 2019, foi fortalecer a produção cingalesa de orgânicos. Logo após o político tomar posse, o que se constatou, em verdade, é que ele queria impor esse tipo de agricultura no país. A importação e o uso de fertilizantes e pesticidas sintéticos foram proibidos e a crise alimentar que já estava instaurada no Sri Lanka piorou.

Os resultados foram desastrosos, já que um terço da produção agrícola do país ficou sem plantio. Houve redução na produção de chá, um dos principais produtos exportados pelo país, com prejuízo ultrapassando os US$ 400 milhões. As culturas de milho e coco também registraram queda. A produção de arroz diminuiu cerca de 20% seis meses após a entrada em vigor das medidas, demandando que fossem importados US$ 450 milhões do cereal para abastecer a população. Ainda, o governo precisou desembolsar US$ 350 milhões para indenizar e subsidiar produtores rurais que não conseguiram atender às diretrizes impostas.

Pior do que a tragédia econômica, entretanto, é a tragédia humana: estima-se que quase 500 mil pessoas se encontrem abaixo da linha da pobreza na nação asiática. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a população do Sri Lanka foi uma das que mais sofreram com o aumento nos preços finais de diversos produtos verificados no mundo todo nos últimos meses. No país, as medidas de imposição da agricultura orgânica reforçaram esse cenário.  

É importante ressaltar, porém, que a agricultura orgânica não é a “culpada” pelo o que acontece no Sri Lanka. O que se viu foi um plano mal executado, que ignorou estudos e excluiu especialistas e a própria população do desenvolvimento da política agrícola. O governo desconsiderou a voz de 2 milhões de agricultores, que do dia para a noite foram obrigados a se adaptar.

Acredito muito no mercado de orgânicos e o Brasil também acredita, tanto que o segmento movimentou R$ 5,8 bilhões no país em 2020 e teve alta de 30% nas vendas em comparação com o ano anterior (dados da Organis – Associação de Promoção dos Orgânicos). O número de produtores também tem crescido. Se em 2010, havia cerca de 5,4 mil unidades de produção registradas junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em 2021, o número saltou para 26,6 mil (crescimento de quase 400%).

Na Vapza, começamos a implementar a linha de orgânicos em 2014, depois de muita pesquisa e de constatar que essa era uma tendência crescente em todo o mundo. Mesmo assim, seguimos enfrentando diversas dificuldades, sendo talvez a principal delas em relação a fornecedores, vez que ainda é difícil no Brasil produzir orgânicos em uma escala grande como a que seria necessária para suprir toda a nossa produção.

O que se constata, portanto, é que, por enquanto, é impossível alimentar o mundo todo, 7,7 bilhões de habitantes, com alimentos orgânicos, porque a agricultura orgânica demanda um processo que foca no longo prazo, além de ser uma produção reduzida em comparação com a convencional. O problema é que, de acordo com a ONU, são 700 milhões de pessoas passando fome ao redor do globo. Trata-se de uma questão urgente e é nela que deve recair a preocupação do Poder Público agora. Um passo de cada vez.

*Enrico Milani é Engenheiro de Produção pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e CEO da Vapza Alimentos.