Meio Ambiente

Multiplicadores aprendem técnicas para recompor a vegetação do Cerrado

Cerca de 30 técnicos de instituições públicas e privadas atuantes no Distrito Federal e região participaram do curso “Recomposição da Vegetação no Cerrado”, realizado de 24 a 26 de agosto na Embrapa Cerrados. Promovida pela Embrapa e pela Emater-DF, com apoio do Projeto Biomas, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), do Ministério do Meio Ambiente, da Rede de Fomento ILPF e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), a atividade concentrou módulos sobre legislação, aspectos técnicos e ferramentas, além de visitas a campo.

O evento teve a coordenação dos analistas João Luís Dalla Corte e Marco Antônio Borba, do Setor de Prospecção e Avaliação de Tecnologias (SPAT) da área de Transferência de Tecnologia da Embrapa Cerrados. Durante o curso, os participantes aprenderam sobre tecnologias e processos sobre a legislação ambiental, caracterização do Cerrado, produção de mudas, a ferramenta virtual Webambiente e metodologias para recuperação de áreas degradadas. A ideia foi capacitar os alunos para atuar com eficiência na adequação da paisagem rural ao novo Código Florestal Brasileiro.

“É uma satisfação realizarmos este curso no momento em que o assunto tratado é extremamente importante para a demanda que a sociedade nos coloca de produzir com sustentabilidade”, observou o chefe-adjunto da Transferência de Tecnologia da Embrapa Cerrados, Sebastião Pedro, representando o chefe geral do centro de pesquisa, Cláudio Karia.

O pesquisador José Felipe Ribeiro e o extensionista rural da Emater-DF, Antônio Carlos Mendes, destacaram o caráter prático do curso. “Temos aqui a interação entre a pesquisa, que é a Embrapa, e a aplicação da pesquisa no campo, que é a Emater”, explicou Ribeiro. “Com o conhecimento da legislação e das técnicas, vamos trabalhar para a recuperação do Cerrado”, completou Mendes.

Em busca de novos conhecimentos, Deyver Santos, gerente administrativo do departamento agrícola do Grupo Votorantim, decidiu participar do curso. “Buscamos novas ferramentas e opções de uso para impulsionar o desenvolvimento estratégico de uma área de cerca de 28 mil hectares que o Grupo tem em Niquelândia (GO)”, afirmou.

Lorena Lucas, assessora técnica do Centro de Excelência do Cerrado (Cerratenses), órgão vinculado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Distrito Federal, estava interessada em saber mais sobre recuperação de áreas degradadas no Cerrado. A instituição em que atua encabeça um fórum permanente de entidades que estão construindo o Plano de Recuperação do Cerrado no DF. “Tenho experiência no Bioma Mata Atlântica e agora quero entender como (a recomposição da vegetação) funciona no Cerrado para poder prestar assistência e ser multiplicadora dos técnicos. São informações que vão auxiliar no nosso trabalho”, disse.

Extensionistas da Emater-DF, os agrônomos João Ricardo Soares e Rafael de Medeiros pretendiam se atualizar quanto à legislação e conhecer técnicas. “A bagagem da legislação é complexa. Precisamos conhecê-la, assim como as alternativas oferecidas pela Embrapa para recuperação do Cerrado”, comentou Medeiros. “Queremos ficar atualizados quanto à legislação e conhecer as opções que possam ser aplicadas, dado que a recomposição (da vegetação) geralmente não é vista pela dimensão econômica, além de conhecer medidas efetivas nesse sentido”, completou Soares.

Visitas a campo

No último dia da atividade, os participantes fizeram visitas a campo. Pela manhã, eles conheceram o viveiro da Embrapa Cerrados, apresentado pelo pesquisador Tadeu Graciolli, que falou sobre a gestão, o funcionamento e as melhorias a serem feitas nas instalações e no manejo da irrigação, além do preparo das mudas. “A muda tratada aqui dentro tem um valor agregado que é a tecnologia da espécie que ela representa e também da tecnologia de produção da muda”, explicou.

Em seguida, os participantes do curso foram ao Núcleo Rural Tabatinga (DF), onde conheceram a produção de mudas de cerca de 80 espécies de árvores para recomposição de Cerrado, uma área com plantio de clones de teca e uma Área de Preservação Permanente (APP) na Fazenda Savana, apresentadas pelo engenheiro florestal Sérgio Gonçalves, proprietário da fazenda.

Ele destacou a experiência local com projetos de plantio e manutenção de áreas do DF executados desde 1999 (com o plantio de cerca de 100 mil árvores). Gonçalves falou também sobre a automatização de alguns processos no viveiro, considerando o conceito de indústria de floresta, e as oportunidades de atendimento de órgãos públicos e privados e produtores rurais quanto a passivos ambientais, principalmente com o objetivo de atender às exigências da legislação de proteção da vegetação nativa.

“Com o novo Código Florestal, abre-se um caminho para a restauração não só de APPs, mas também de Reserva Legal (RL), visando o retorno financeiro com a exploração dessas áreas” disse, acrescentando o potencial de inclusão social da atividade: “Há uma cadeia de trabalho muito longa, com uma gama de possibilidades para que as pessoas fiquem no campo, recebam remuneração adequada e tenham melhor qualidade de vida”.

À tarde, o grupo seguiu para a Fazenda Entre Rios, na região do PAD-DF, que abriga a área demonstrativa do Projeto Biomas, iniciativa da Embrapa e da CNA com o objetivo de apresentar aos produtores rurais modelos de uso da árvore com fins econômicos e ambientais. A coordenadora-executiva do projeto pela CNA, Cláudia Rabello, falou sobre a iniciativa e a fase atual dos trabalhos. “Estamos num momento de repensar as formas de plantio e a introdução de novas espécies, pois não basta introduzir espécies arbóreas para recuperar áreas. Temos também que entender e atender à legislação ambiental e ainda buscar meios mais efetivos de fazer que o resultado chegue ao produtor rural”, afirmou.

Duas estações técnicas foram apresentadas por pesquisadores da Embrapa Cerrados. Karina Pulrolnik e Kleberson de Souza abordaram os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) como alternativa para trazer árvores para o Bioma Cerrado com a intensificação sustentável da produção agropecuária. Eles apontaram as vantagens da adoção da tecnologia, como a possibilidade de recuperação do solo de parte dos 52 milhões de hectares de pastagens degradadas no Brasil, a otimização do uso da terra e a produção de biomassa para o sistema plantio direto.

Eles também destacaram a importância do componente florestal no sistema, que permite aumento da biodiversidade, da matéria orgânica do solo e do conforto animal, diminuição da pressão por florestas naturais, diversificação da renda dos produtores e a mitigação dos gases de efeito estufa (GEE), entre outros. Além de formas de plantio, distribuição e manejo das árvores, foram apontadas as características desejáveis da espécie arbórea a ser implantada no sistema, como arquitetura de copa favorável, facilidade de estabelecimento e tolerância a insetos e doenças.

Foram apresentados ainda resultados de alguns estudos, como o estoque de carbono acumulado em floresta de seis anos plantada com eucalipto – acúmulo de 71,13 toneladas/ha de carbono nas plantas e de 123 toneladas/ha a 152 toneladas/ha no solo, em camada de 0 cm a 100 cm. Também mostraram dados sobre a vitrine de ILPF da Embrapa Cerrados, destacando os ganhos de produtividade nas fases silviagrícola (2009-2012) e silvipastoril (2012-atual) dos experimentos, o manejo das árvores e o efeito da desrama sobre a produtividade dos grãos e o estoque de carbono no fuste (o potencial de neutralização da emissão de GEE de bovinos* variou o equivalente entre 27 UA/ha e 43 UA/ha, dependendo da espécie e do arranjo das árvores de eucalipto) e dados preliminares no solo.

“Acreditamos que a ILPF deve ser um sistema cujo componente florestal tenha alto valor agregado. Ela pode ser usada como parte da área de Reserva Legal, já que o Novo Código Florestal permite a utilização permanente de espécies exóticas em até 50% da área a ser recomposta”, explicaram.

A visita foi concluída com a apresentação de José Felipe Ribeiro, que falou das principais atividades do projeto Biomas na fazenda, destacando as diferentes formas de plantio, como semeadura direta e plantios de mudas como estratégias para recuperação de áreas de Cerrado.

Coordenador do Projeto Biomas no Cerrado, o pesquisador mostrou os experimentos desenvolvidos no âmbito do projeto com espécies nativas e exóticas de fruteiras e madeireiras. “O Cerrado tem grande oferta ambiental de espécies e de ambientes e a nossa prioridade (no projeto) eram plantios que envolvessem nativas, como o baru, pequi, mangaba, jatobá, e que também pudéssemos estudar estratégias mais baratas de plantio, como a semeadura direta manual ou mesmo mecânica”, explicou.

*Potencial de neutralização da emissão de GEE de um bovino com 1 Unidade Animal (UA) ou 450kg de peso vivo, que corresponde, em média, a 1,5 tonelada/ha/ano de CO2 equivalente.

Breno Lobato (MTb 9417-MG)
Embrapa Cerrados
cerrados.imprensa@embrapa.br
Telefone: (61) 3388-9945

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/

Ler matéria completa

Vagner Liberato

Meu nome é Vagner Liberato, sou carioca e vivo no Rio de Janeiro. Formei-me em Administração de Empresas e sou um apaixonado por conteúdo sustentável. Desde 2015 faço o Jornal Sustentabilidade com maior prazer! Para falar comigo, entre em contato pelo email: contato@meioambienterio.com

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close