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Estação BRT “Maria Tereza”, a que foi sem nunca ter sido

Não causou impacto a notícia veiculada nestes últimos dias referente à demolição da Estação BRT “Maria Tereza” localizada ao início da Estrada do Magarça, em Campo Grande. A maior parcela da comunidade campo-grandense, usuária ou não do sistema de ônibus municipal e BRT, não sabe até os dias atuais sobre os motivos pelo qual aquela construção foi erguida. Ela não fazia parte do traçado original da linha do BRT entre Campo Grande e Santa Cruz. Em verdade, nas planilhas iniciais do BRT Transoeste, aquela estação, que teve o “salgado” custo de um milhão e meio de reais, seria um elo importante no que chamavam na ocasião, “terceira fase do BRT Transoeste”, se referindo a um “futuro” um tanto incerto em relação à continuidade da construção do sistema. Seria implantada a linha “expressa” entre Campo Grande e terminal Alvorada na Barra da Tijuca. No fantasioso e enganador traçado desta linha estava inclusa também uma segunda estação de parada, que seria onde hoje se localiza atualmente o Park Shopping Campo Grande. O caminho que as composições usariam para chegar até o eixo principal segregado (na Av.Dom João VI, antiga Avenida das Américas), seria a Estrada do Mato Alto. O encontro com o eixo principal do Transoeste aconteceria nas proximidades da Estação Mato Alto (em Pedra de Guaratiba) onde as composições atingiriam a pista principal segregada do sistema, para ir ou voltar da Barra da Tijuca (terminal Alvorada). Devido a questões técnicas e óbvias, os BRT´s expressos para Campo Grande não fariam paradas na Estação Mato Alto.

Estação BRT Maria Tereza
Estação BRT Maria Tereza / imagem Extra online

Com o advento das eleições municipais na ocasião, logo após a inauguração do BRT Transoeste, o primeiro de todos os sistemas de ônibus expressos da cidade, a Estação Maria Tereza pouco depois ficou pronta, todavia nunca tendo funcionado. Passado algum tempo, diversas iniciativas, protestos e manifestações de entidades representativas do interesse comum dos moradores de Campo Grande não renderam nenhum resultado positivo em relação ao funcionamento da estação e da linha expressa do BRT. Daí então, poucos meses depois, aquela instalação passou a servir como moradia para mendigos, viciados e desocupados da região, uma espécie de “quartel general” dessa legião em um local anteriormente tranquilo.

Em uma das muitas consultas feitas a Prefeitura ao início desta situação, um de seus representantes informou na época que um dos motivos pelo qual a Estação Maria Tereza estaria sem uso é porque não foi construída a pista segregada, necessária à circulação do BRT nesse trajeto e isso talvez fosse resolvido em “futuro próximo”. Com essa informação, criou-se um desagradável paradoxo que confundiu a cabeça de muitas pessoas. O corredor Transoeste a partir da Estação Pingo D´Agua, no trecho entre esta e o terminal de Santa Cruz, funciona com sete estações (“Vendas de Varanda”, “Santa Veridiana”, “Curral Falso”, “Cajueiros”, “Gastão Rangel”, “General Olímpio” e “Terminal Santa Cruz”) sem a existência dessa referida pista. Esta tem início apenas após a Estação “Pingo D´Agua” e segue até o “Jardim Oceânico”. Portanto a inexistência desta pista no trecho entre Campo Grande e Guaratiba (nas Estradas do Magarça e Mato Alto) não serve como explicação para a não implantação da linha expressa para Campo Grande. Um grande número de composições do BRT ao sair de serviço ou para entrar no mesmo, usam esses caminhos para ir ou voltar de suas garagens sem nenhuma dificuldade.

Estação BRT Maria Tereza
Estação BRT Maria Tereza / imagem: G1/Globo.com

Com a realização de grandes eventos ocorridos em nossa cidade (Copa do Mundo, Olimpíadas e outros) houve a necessidade de finalizar a construção do corredor Transoeste, fazendo-o chegar do Terminal Alvorada até a Estação metroviária do Jardim Oceânico, no centro da Barra da Tijuca. Em verdade, o modal que chegaria até o Alvorada seria o metrô. Dado a escassez de recursos (a linha 4 do metrô foi considerada a obra mais cara do país) e de tempo, ficou mais fácil levar até a Barra, o sistema do BRT. Novas linhas foram criadas a partir deste novo terminal, para Pingo D´Agua, Santa Cruz, Mato Alto, Sulacap, etc. e novamente a população de Campo Grande não foi beneficiada. Existe uma lenda que corre de boca em boca nos meios populares que diz que o projetista do Transoeste, nunca visitou antes a região para qual foi sistema projetado. A inexistência inicial da Estação “Ilha de Guaratiba” chegou a gerar uma enorme onde protestos e abaixo assinado dos moradores da região e adjacentes até que a mesma passasse a existir no Transoeste. Não podemos afirmar se há teor de verdade ou não nessa informação, todavia o melhor caminho para a linha expressa de o BRT sair e chegar de Campo Grande seria usando como acesso as ruas Professor Gonçalves e Olinda Elis de onde então as composições adentrariam na Estrada do Cachamorra até encontrar a Estrada do Mato Alto (nas imediações da Fábrica Michelin). Nesse ínterim, a população opinou na época que poderiam então ser criadas estações BRT no “Rio da Prata” (encontro da Rua Olinda Elis com Estrada do Cachamorra) e Michelin (no encontro da Estrada do Cachamorra com Estrada do Mato Alto). A implantação dessas duas estações aliviaria bastante a “carga excedente” de passageiros que hoje superlota a Estação “Mato Alto”, provenientes de Campo Grande, Bangú, Vila Kennedy e adjacências.

Em resumo, depois de tantas controvérsias, informações e soluções que não serviram pra nada, a comunidade campo-grandense tem hoje a plena consciência que a Estação Maria Tereza se vai, já vai “tarde” e sem deixar nenhuma saudade. Espera-se que pelo menos o material de sua demolição, seja guardado (e não descartado) para reposição do que diariamente é quebrado e vandalizado em inúmeras outras estações. O BRT foi um sistema criado para encurtar distâncias e tempo em viagens. Contudo, nunca funcionou desta maneira para os moradores de Campo Grande. Antes dessa história toda, estes tinham para seu uso a linha municipal “Campo Grande/Barra” que a partir do bairro, seguia em linha reta até Guaratiba, onde então na Av.das Américas, chegava facilmente até a Barra da Tijuca. Com a extinção dessa e outras linhas municipais, hoje, quem está em Campo Grande e pretende chegar de BRT até a Barra, necessita:

  • Embarcar no BRT de Campo Grande para Santa Cruz onde só existem composições paradoras,
  • Soltar na Estação Paciência, entrar em outra fila (se não quiser ir de pé) e embarcar no BRT para o Recreio (Estação Salvador Allende),
  • Soltar nas Estações Recreio-Shopping ou Salvador Allende para embarcar em um terceiro BRT, para chegar enfim até ao Terminal Alvorada ou Jardim Oceânico.

Em síntese, uma viagem bem complicada e mais demorada do que antes. Quem está em Campo Grande, necessita seguir até Curral Falso* (em Santa Cruz) para então, retornar para a Barra da Tijuca (?). * Curral Falso (É nesse ponto que a linha de BRT´s Paciência-Recreio faz a curva e adentra na Estrada da Pedra em direção à Barra).

A alternativa menos complicada que restou aos moradores de Campo Grande para evitar esse enorme transtorno diário em suas viagens para a Barra na ida e volta é fazer uso de uma das linhas alimentadoras (“Campo Grande/Mato Alto”, “Bangú/Mato Alto” ou “Vila Kennedy/Mato Alto”). Naquela estação (Mato Alto) conseguem fazer então finalmente sua transferência para os BRT´s de linhas que passam em direção a Barra (Terminal Alvorada), Recreio (Terminal Salvador Allende) ou Jardim Oceânico (conexão com o metrô), sem terem que vivenciar a “via crucis” em que se transformou em suas vidas com a fictícia e anunciada ligação do Transoeste entre Barra e Campo Grande.

Com as informações: Ronaldo de Andrade Inácio

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Ronaldo de Andrade

Carioca, iniciou carreira no Serviço Público Federal em 1975, na área de radioproteção e dosimetria. Gerenciou setores de atendimento no fornecimento e controle de monitores individuais de radiação, aferição em aparelhos de radiologia odontológica no RJ e calibração de monitores de radiação no Instituto de Radioproteção e Dosimetria da Comissão Nacional de Energia Nuclear.

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