Meio Ambiente

Pesquisa promove conservação e uso da palmeira do Pampa

Ameaçado de extinção, o butiazeiro, palmeira nativa que faz parte da história e da cultura gaúcha, é foco de estudos que vão garantir sua preservação e o cultivo em escala comercial. O conjunto de pesquisas que envolve a palmeira foi selecionado como finalista na primeira edição do Prêmio de Biodiversidade, promovido pelo Ministério do Meio Ambiente, ficando entre as 18 melhores propostas em um universo de 888 concorrentes em todo o território nacional.

Os butiazais têm sofrido com a expansão das áreas urbanas e com atividades agrícolas. Para reverter esse quadro, uma série de trabalhos coordenados pela Embrapa, como o mapeamento das plantas remanescentes, visa à preservação e ao aumento do conhecimento sobre o butiá, de modo a conservar a palmeira, promover seu uso e desenvolver técnicas que permitam seu cultivo em escala comercial.

Os cientistas também coletaram amostras de plantas para compor o Banco Ativo de Germoplasma de Frutas Nativas e promoveram um resgate de conhecimento dos agricultores associados ao butiá.

A pesquisadora Rosa Lia Barbieri, da Embrapa Clima Temperado, coordenadora da equipe de pesquisa, diz que o objetivo é promover a conservação in situ e o uso sustentável de butiazais, em colaboração com o setor privado, fornecendo subsídios para políticas públicas e planos de desenvolvimento local e regional relacionados ao uso sustentável da biodiversidade.

A expectativa é que, em um futuro próximo, o consumidor possa ter à disposição vários produtos obtidos a partir do fruto dessa palmeira. “Para que isso aconteça, as ações da Embrapa têm contribuído no sentido de promover a valorização do butiá como estratégia para a conservação e o uso sustentável dos butiazais remanescentes”, esclarece a pesquisadora.

O avanço da agricultura e a falta de interesse pelas frutas nativas, até há pouco tempo, foram os principais motivos da diminuição do número dessas palmeiras em seu habitat. Essa ameaça à biodiversidade pelo avanço das monoculturas foi denunciada pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Segundo a entidade internacional, cerca de 40 mil espécies vegetais podem ser extintas no mundo nos próximos cinquenta anos, devido à especialização do plantio. Outro entrave está na falta de legislação quanto à exploração comercial.

Localizadas 70 mil plantas adultas

A Embrapa, ao longo de dez anos, coordena um conjunto de ações para gerar informações e valorizar a biodiversidade associada aos ecossistemas de butiazais. Entre elas está o mapeamento da densidade populacional de palmares de Butia odorata, que teve início em 2010, na Fazenda São Miguel, localizada no Município de Tapes (RS). Utilizando estratégias metodológicas de Sensoriamento Remoto e de Sistemas de Informação Geográfica (SIG), as imagens de satélite Worldview-2, de alta resolução espacial (0,5 metros) e alta resolução espectral (oito bandas), permitiram desenvolver uma técnica de mapeamento e diferenciação da espécie-alvo (Butia odorata), pela sua resposta espectral.

“O resultado do mapeamento de densidade populacional dos butiazais permitiu identificar e localizar aproximadamente 70 mil indivíduos de butiá adulto, com áreas de alta densidade, 270 indivíduos/ha, e áreas de baixa densidade, com 12 a 20 indivíduos/ha, em uma área de 649,38 ha, fornecendo subsídios para a indicação da área de manejo conservativo”, informou a analista da Embrapa Fábia Amorim da Costa.

A área de mapeamento da densidade populacional do Butia odorata foi ampliada para quatro fazendas adicionais, localizadas nos municípios de Tapes e Barra do Ribeiro (RS), por um contrato de parceria técnica especializada, que teve início em novembro de 2014, celebrado entre  o Sindicato Rural de Tapes, a Embrapa e a Fundação de Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário Edmundo Gastal (Fapeg).

Integração butiá-pecuária

Outro estudo realizado na Fazenda São Miguel foi a avaliação de diferentes estratégias de manejo conservativo, visando a fomentar a conservação in situ de Butia odorata. O trabalho integrou o butiazal com a pecuária de corte. Essa é uma maneira racional de associar a conservação da biodiversidade com a produção pecuária em larga escala, e que vem tendo aprovação, tanto de ambientalistas como de produtores empresariais.

As estratégias de manejo favoreceram a regeneração do butiazal, isto é, o desenvolvimento de plântulas de B. odorata na recomposição da população natural. Os resultados mostraram que nessa área sob manejo conservativo, o número de plântulas novas de B. odorata por parcela aumentou de um ano para outro, passando de uma densidade média de plântulas de 1,155 plantas/m² em 2014 para 1,8425 plantas/m², nas quatro parcelas.

Segundo o pesquisador da Embrapa Enio Sosinski, houve um aumento de quase uma planta por metro quadrado, o que equivale a dizer que, em um hectare, ocorreu um crescimento de aproximadamente sete mil plantas. Ficou concluído, também, que a proximidade de plantas pouco palatáveis e espinhosas favorecem o estabelecimento de plântulas novas de butiá, pois evitam o pastejo. “Esses são números e dados impactantes sobre conservação ambiental aliada a uso sustentável, quando aplicadas às boas práticas de manejo”, disse Sosinski.

As atividades de pesquisa são realizadas com cooperação de várias instituições: Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, Universidade Federal de Pelotas, Instituto Federal Sul-rio-grandense, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de Caxias do Sul, Universidad de la República, do Uruguai, e são viabilizadas com recursos do GEF/Banco Mundial, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs) e também da Embrapa.

Rosa Lia Barbieri explica que os butiazeiros demoram para produzir os primeiros cachos, porém vale o investimento, pois podem continuar a produzir durante muito tempo. “Se você plantar um butiazeiro hoje, seus filhos, netos, bisnetos e até tataranetos poderão usufruir dos frutos dessa palmeira”, comenta a pesquisadora. Segundo ela, o cultivo do butiá é importante como uma alternativa para a pequena propriedade, diversificando a produção e ampliando a geração de renda da família.

Cristiane Betemps (MTb 7418/RS)
Embrapa Clima Temperado

Telefone: (53) 3275-8215

Sobre o autor | Website

Meu nome é Vagner Liberato, sou carioca e vivo no Rio de Janeiro. Formei-me em Administração de Empresas e sou um apaixonado por conteúdo sustentável. Desde 2015 faço o Meio Ambiente Rio com maior prazer! Para falar comigo, entre em contato pelo email: contato@meioambienterio.com

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