Meio Ambiente

O mar está subindo na costa da Flórida. Será possível salvar Miami?

Os efeitos das mudanças climáticas ficam cada dia mais claros em todo o planeta

Frank Behrens, o animado representante de uma empresa holandesa que só vê lucros, e nenhum prejuízo, nas mudanças climáticas, desliga o motor do nosso barco de 6,5 metros. Logo ficamos à deriva, sendo aos poucos arrastados pela água turva em direção ao centro do Lago Maule, de propriedade particular, na região norte de Miami Beach. Não é bem um lugar aprazível. Como tantos outros na Flórida, esse lago surgiu em uma pedreira. Já serviu como local de competição de barcos, criação de peixes-boi e até, na década de 1960, como cenário de Flipper, uma série de TV sobre um golfinho simpático. Há pouco, duas empresas consideraram a possibilidade de aterrar parte dele e ali levantar blocos residenciais. Por sua vez, Behrens está empenhado na promoção de um vilarejo flutuante, composto de 29 ilhas artificiais e privadas, cada qual com uma única e luxuosa casa de quatro quartos, praia com areia, piscina, palmeiras e um deque longo o bastante para acomodar iates enormes. Tudo isso por 12,5 milhões de dólares.

A empresa que Behrens representa, a Dutch Docklands, adquiriu o direito de explorar o lago e vem anunciando o condomínio de ilhas como uma espécie de antídoto dos ricos para as alterações no clima. Quanto à possibilidade de elevação no nível do mar, bem, aí está a beleza das casas flutuantes. As ilhas ficariam ancoradas no fundo do Maule por meio de uma estrutura similar àquelas que permitem às plataformas de petróleo enfrentar os furacões mais violentos.

O projeto do condomínio flutuante é parte de um frenético surto de construção civil, alimentado pela riqueza de sul-americanos e europeus que compram imóveis à vista e estão transformando a linha do horizonte deMiami. Do nosso barco podemos avistar os guindastes erguendo-se para o céu em Sunny Isles, uma ilha em que o alto luxo é a tendência mais visível. Em um mercado imobiliário que celebra a opulência – o prédio Porsche Design Tower, de 560 milhões de dólares, possui elevadores de vidro que permitem aos donos levar seus carros até o apartamento –, seria inevitável que a maior ameaça à própria existência do sul da Flórida acabasse sendo usada como estratégia promocional.

O projeto da empresa holandesa parece apenas mais um dos muitos empreendimentos bizarros na história da Flórida. Mas a preocupação com o clima faz com que se destaque da maioria dos arranha-céus ao redor, erguidos sem nenhuma consideração pela elevação no nível do mar – que, segundo as previsões, vai inundar com frequência o sul da Flórida nas próximas décadas e submergir parte da região até o fim deste século.

Essas abordagens contraditórias – a de tocar os negócios a todo o vapor, mesmo que apenas por mais um ciclo de hipotecas, ou a de considerar o que vem por aí, preparando-se para o futuro – refletem um ponto crucial de inflexão na discussão sobre as mudanças climáticas. À medida que os alertas a respeito do aquecimento global se tornam mais urgentes, e as consequências cada vez mais óbvias, uma quantidade crescente de empresas, e também de autoridades, está começando a levar em conta as mudanças climáticas. Em cidades como Miami, em que o setor de construção civil é um motor da economia, as empresas querem achar maneiras de viabilizar tal crescimento pelo maior prazo possível.

Behrens foi criado em Aruba, e mudou-se para Miami há uma década. Em 2013, passou a trabalhar com a Dutch Docklands, depois que ficou claro que a lideranças regionais estavam despertando para a escala do desastre que se anuncia. Para Behrens, o valor do projeto como empreendimento de alto luxo é atraente para os investidores em uma região que necessariamente terá de ser repensada ao longo das próximas décadas. Caso seja bem-sucedido, o vilarejo flutuante vai descortinar uma gama de novas possibilidades: comunidades com parques, escolas e outros serviços – tudo isso sobre plataformas flutuantes. Um hospital flutuante, por exemplo. “As pessoas veem apenas os efeitos negativos das inundações”, argumenta Behrens, sem o menor resquício de ironia. “Mas precisamos mostrar a elas que há uma maneira de ganhar dinheiro com isso. Para o governo, significa arrecadação maior. Para os empreiteiros, garantir o investimento pelos próximos 50 anos. Muito dinheiro vai mudar de mãos por causa das mudanças no clima. Vai surgir todo um setor novo na economia.”

Custos e lucros das mudanças climáticas

A Flórida é um lugar conveniente para se visualizar com mais nitidez os custos – assim como os lucros – relacionados com as alterações climáticas. Ao redor do mundo, muitas localidades costeiras estão em risco, mas a Flórida é uma das mais vulneráveis. O futuro da região vai se definir por um acirrado debate público em torno de tributos, zoneamento, projetos de infraestrutura e direito de propriedade – uma discussão tornada urgente pela elevação no nível da água.

NÃO É SÓ A SUBIDA DOS MARES. Nas próximas décadas, a Flórida será assolada por condições climáticas extremas, sofrendo secas durante parte do ano e enchentes na época mais úmida, segundo previsões do governo americano. O aumento nas temperaturas e a seca ameaçam um setor agrícola que, sobretudo no inverno, abastece a costa leste do país com hortaliças, e ainda podem prejudicar as três principais safras na Flórida – de tomate, cana-de-açúcar e frutas cítricas. Por outro lado, a temporada das chuvas promete trazer um número maior de tempestades, com furacões mais fortes e ondas mais altas.

Os distúrbios mais significativos vão ocorrer nos 2 170 quilômetros de litoral. Três quartos dos 18 milhões de habitantes da Flórida moram em condados costeiros, os quais respondem por 80% de toda a riqueza produzida no estado. Em 2010, a estrutura física dessa zona urbanizada à beira-mar, incluindo edifícios, estradas e pontes, foi avaliada em 2 trilhões de dólares. Quase metade dos 1 330 quilômetros de praias de areia no estado está passando por processos erosivos.Quatro condados da região sul – Monroe, Miami-Dade, Broward e Palm Beach – abrigam um terço dos moradores da Flórida, e 2,4 milhões de pessoas vivem a menos de 1,2 metro acima da linha de preamar. As ruas de Fort Lauderdale, Hollywood e Miami Beach com frequência ficam inundadas durante as ocasionais “marés excepcionais”, bem mais altas que as normais.

O nível dos oceanos pode subir 60 centímetros até 2060, devido tanto ao aquecimento e à expansão da água quanto ao derretimento dos mantos de gelo nos polos. No fim do século, a subida dos mares pode alcançar a marca dos 2 metros. Nesse caso, grande parte do condado de Miami-Dade ficaria submersa. Para cada 30 centímetros de elevação do mar, a linha da costa pode avançar de 150 a 610 metros para o interior.

Uma elevação de 60 centímetros seria suficiente para isolar a usina de tratamento de esgotos de Miami-Dade, em Virginia Key, e a usina nuclear que produz eletricidade em Turkey Point, próximo à Baía Biscayne. “Nesse nível, que equivale a 2 pés, ambas vão ficar no meio do oceano”, diz Hal Wanless, chefe do Departamento de Geologia da Universidade de Miami. “A maioria das ilhas de barreira vai ficar inabitável. No nível de 4 pés, surgem problemas para a operação do aeroporto. Não vamos ter condições de manter a água doce acima do nível do mar; com isso, haverá intrusão de água salgada nos reservatórios de água potável. Todo o mundo espera por um final feliz. Mas não é o que aponta a realidade. E o desastre está próximo. Nós conseguimos de fato aquecer o oceano, e agora chegou o momento de enfrentar as consequências.”

Hoje com 72 anos, Wanless não tem esperança de ver os efeitos mais graves das mudanças no clima. Durante três décadas, sua voz solitária vem alertando para o perigo. Ainda na década de 1980, ele constatou que as cracas estavam se agarrando nos pilares do cais em Coral Gables, onde vive, em pontos mais altos que na década de 1940. Nos últimos anos, ele analisou o encolhimento das geleiras na Groenlândia e chegou à conclusão de que o principal modelo científico usado para se calcular a elevação no nível dos mares não levava na devida conta a aceleração do degelo. No ano passado, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), das Nações Unidas, atribuiu em seus cálculos um peso maior ao derretimento dos mantos de gelo, alterando para mais as previsões relativas ao aumento no nível do mar.

Na Baía Biscayne, a via elevada Venetian Causeway cruza seis ilhas artificiais, as Venetian Islands, um endereço elitista à beira-mar – Foto: George Steinmetz

O litoral extenso e baixo torna o estado da Flórida mais vulnerável, mas a verdade é que não há nenhuma região imune. Em 2012, enchentes, incêndios florestais, secas e tempestades por todos os Estados Unidos causaram danos de mais de 110 bilhões de dólares, fazendo daquele ano o segundo pior em termos de prejuízos financeiros em toda a história do país. Em uma amostra da violência do clima que vai se tornar mais comum no mundo, o tufão Haiyan avançou pelo Sudeste Asiático em 2013 e fustigou as Filipinas, cobrando a vida de 6 200 pessoas. O rápido derretimento das geleiras nos Andes e no Himalaia vai acentuar a falta d’água no Peru, na Índia e no Nepal. E, no Brasil, o Planalto Central registrou a pior seca desde 1979. A rica região Sudeste brasileira vive o medo de racionamento de água em 2015.

Nas próximas décadas, de acordo com previsões do Banco Mundial, a instabilidade política e a escassez de alimentos implicarão no deslocamento de milhões de pessoas. Densamente povoadas, as regiões costeiras do sul e do sudeste da Ásia, sobretudo em Bangladesh e no Vietnã, correm o risco de ser inundadas. A elevação dos mares pode fazer com que a água salgada avance por importantes deltas fluviais, destruindo algumas das terras agrícolas mais produtivas do mundo. O delta do Rio Mekong, no Vietnã, em que vivem 17 milhões de pessoas e é cultivado metade do arroz consumido no país, já requer medidas de proteção contra o avanço do mar.

O futuro da Flórida

NO SUL DA FLÓRIDA, as lideranças começaram a mapear, por conta própria, o futuro. Dispõem de pouca ajuda da Assembleia estadual, dominada por deputados republicanos, muitos deles céticos quanto às conclusões dos cientistas a respeito das mudanças climáticas. O governador do estado, Rick Scott, prefere evitar o tema, e várias vezes declarou que “não sou cientista”. No verão passado, quando cinco dos mais renomados climatologistas locais colocaram Scott a par dos últimos resultados, o governador agradeceu – e não disse mais nada.

Os quatro condados que formam o sul do estado esboçaram uma lista de iniciativas gerais visando a “reengenharia” da região, passo a passo, até 2060. Um projeto mais detalhado levaria anos para ficar pronto. Mas a abordagem proposta não tem quase nada de surpreendente. “Vamos fazer o que sempre fizemos”, afirma o procurador Joe Fleming, um perito no uso de terras em Miami. “Vamos dragar e reforçar todas as construções.”

Harvey Ruvin, que já liderou uma força-tarefa encarregada de enfrentar a subida do mar no condado de Miami-Dade, explica as concepções mais atuais: “A ideia é fazer esse plano financeiro abrangente, que incluiria todo tipo de coisa – usinas de dessalinização, soerguimento das estradas e ruas, escolha de terrenos a serem elevados, abertura de canais. Parte do futuro implica erguer algumas áreas em detrimento de outras”.

Ruvin conhece bem os obstáculos a superar. Adiamentos intermináveis. Disputas por direitos de propriedade. Longas batalhas por alterações no zoneamento e nas normas de construção de modo a impedir que se levantem edificações em áreas impossíveis de ser protegidas. Ele nem se arrisca a falar do custo de toda essa reengenharia. “Não tenho como sugerir um valor realista. Talvez uns 50 bilhões?”, chuta, sabendo que é bem mais que isso. Ele está empenhado em viabilizar financeiramente projetos de longo prazo em um lugar que opera com base nos lucros de curto prazo. “Como propor isso aos eleitores, por meio da emissão de títulos públicos, numa época em que os administradores dos condados mal conseguem aumentar um pouco o imposto predial a fim de financiar bibliotecas?”

Em 2014, Ruvin convidou dois executivos da Swiss Re, a gigante global dos seguros, para que explicassem aos membros da sua força-tarefa a precariedade do futuro da Flórida. Esses peritos em contabilidade criaram um modelo preditivo, segundo o qual a região devia esperar prejuízos anuais em eventos relacionados a tempestades na ordem de 33 bilhões de dólares em 2030, quase o dobro dos 17 bilhões registrados em 2008. Também afirmaram que tais prejuízos poderiam ser reduzidos em até 40% caso fossem tomadas medidas para proteger as propriedades vulneráveis. “Esse tipo de questão não pode ser adiado por outros 10, 20 ou 30 anos”, comenta Mark Way, especialista em sustentabilidade da Swiss Re.

Outro fator, diz Way, é que os programas de seguro, subsidiados pelo governo da Flórida, provocaram distorções no mercado e levaram a taxas reduzidas que não refletem bem os riscos. “O efeito final disso é, no fundo, incentivar de modo direto ou indireto a construção em áreas que, de outro modo, não seriam aproveitadas.” As autoridades locais estão começando a reforçar diques e a instalar bombas para a retirada d’água. Mais tarde virão projetos mais ousados, como afastar do litoral as usinas elétricas e de tratamento de água e proteger bens imobiliários de maior valor – universidades, hospitais, aeroportos e os parques turísticos tão importantes para a economia estadual. As palavras-chave são “proteger”, “adaptar” e “recuar”.

Mais de 3 mil quilômetros de canais foram escavados para drenar a região pantanosa dos Everglades. Ainda assim, a subida do mar fez com que água salgada chegasse ao interior. Comportas impedem a passagem da água, e enormes bombas evitam que os canais transbordem – Foto: George Steinmetz

“Não adianta nada ficar se roendo de preocupação por algo que vai ocorrer daqui a 70 anos”, comenta Kristin Jacobs, ex-administradora do condado Brower e membro da força-tarefa para questões climáticas criada pelo presidente Barack Obama. Eleita para a Assembleia estadual no outono passado, Kristin fundamenta na tecnologia a sua confiança. “Quando examinamos o modo como, desde o princípio, ocorreu a ocupação humana por todos os cantos do mundo, o que se constata é que vamos evoluindo em função das necessidades”, diz ela. “Outros países, como a Holanda, acabaram por descobrir formas de conviver com o problema. E é essa engenhosidade que estamos aprendendo aqui.”

OS HOLANDESES vêm buscando novos negócios em muitas cidades litorâneas, de Jacarta a San Francisco. Estabeleceram uma base na Flórida há vários anos, quando Frank Behrens fundou uma Câmara de Comércio holandesa em Miami. Nos Países Baixos, em que dois terços da população vivem ao nível do mar, ou abaixo dele, por volta de 450 empresas dedicam-se a questões relacionadas com a água, respondendo por 4% da economia nacional – percentual equivalente ao do setor automobilístico nos Estados Unidos.

Piet Dircke, cuja empresa, a Arcadis, ajudou Nova Orleans a projetar diques de contenção novos após o furacão Katrina, visitou Miami pela quarta vez no verão passado a fim de participar de uma oficina com arquitetos e engenheiros. Dircke e representantes de quatro outras companhias holandesas apresentaram instigantes esboços mostrando projetos adaptados a áreas vulneráveis. “Esse delta é um dos melhores locais para se investir dinheiro”, diz ele. “Roterdã é um exemplo para o mundo de cidade adaptativa. Cingapura, Copenhague, Estocolmo – são todas cidades que enfatizaram a sua identidade com a água e fizeram disso um negócio. Miami também pode se tornar uma cidade aquática.”

Será preciso uma tecnologia ainda não aperfeiçoada para se superar os obstáculos devidos às inusitadas feições geológicas no sul da Flórida, sobretudo o leito rochoso de calcário – ao mesmo tempo, bênção e maldição. Depois de minerado, o calcário proporciona material para a construção de estradas e o aterro de áreas mais elevadas. Em seu estado natural, porém, comporta-se como uma esponja porosa. A água circula por dentro do calcário, que não pode ser usado como barreira. Sempre resta a opção de construir diques – e é o que vem fazendo Miami Beach. Mas, por mais altos que sejam, os diques de nada servem para a água que aflora à superfície através do solo.

Até mesmo os holandeses teriam dificuldade para proteger a estreita ilha de barreira, medindo 11 quilômetros, que abriga Miami Beach. “Bemvindo ao ponto mais vulnerável da área mais vulnerável”, comenta o engenheiro Bruce Mowry quando o encontro no cruzamento da Rua 20 com a Avenida Purdy, um dos locais mais baixos em Miami Beach. Ele está surfando na onda do seu sucesso: a um custo de 100 milhões de dólares e 20 bombas novas de água, ele conseguiu manter o condado seco durante a “maré excepcional” de outubro. Um ano antes, havia gente remando caiaques na Avenida Purdy – o que não é bem o tipo de imagem que atrai os turistas.

As novas bombas fazem parte de uma reforma, ao custo de 300 milhões de dólares, do antiquado sistema de proteção contra enchentes. Com 80 bombas, a expectativa de Mowry é conseguir mais duas ou três décadas de paz para Miami Beach – sem isso, a área poderia enfrentar quase 240 inundações por ano. “Miami Beach nunca vai deixar de existir”, diz. “Mas vai ser diferente. Talvez a gente adote áreas residenciais flutuantes. Ou converta corredores de transporte em vias aquáticas. Quando as pessoas me perguntam se é possível fazer tudo isso, respondo: ‘Claro que dá. Basta arrumar o dinheiro…'”

O futuro de Miami

SE MIAMI TEM FUTURO como uma das cidades aquáticas do planeta, provavelmente vai se parecer mais com o arquipélago dos Florida Keys do que com Estocolmo. Por esse motivo, tomo a estrada Overseas Highway com destino a Key West, passando por casas sobre pilares, lojas de equipamentos de navegação e pinheiros agonizantes devido à infiltração de água salgada no terreno. Os campos de golfe no arquipélago agora são plantados com grama resistente ao sal.

Essas ilhas são os resquícios expostos de um antigo recife de coral. Quase todas estão a menos de 1,5 metro acima do nível do mar. Os recifes constituem uma proteção eficiente das regiões costeiras contra as tempestades. Se estão saudáveis, conseguem acompanhar o aumento no nível do mar crescendo à medida que sobe o oceano. Contudo, boa parte dos recifes ao largo da Flórida morreu de doenças no fim da década de 1970.

“Quando se mergulha hoje, o que se vê são apenas corais mortos”, diz o oceanógrafo Chris Langdon, da Universidade de Miami. A água do mar mais quente e ácida impede que os recifes se recuperem. Langdon quer descobrir um coral que consiga suportar essas condições. “Uma forma de avaliar o valor dos recifes é imaginar o quanto custaria ao Corpo de Engenheiros do Exército construir um dique com 240 quilômetros de comprimento, e ainda aumentar a sua altura de tantos em tantos anos”, explica. “É exatamente isso o que os recifes fazem de graça.”

A estrada, conhecida como Rodovia US 1, interliga a série de ilhas por meio de 42 pontes. A população do arquipélago é limitada à quantidade de gente que pode ser evacuada de carro em 24 horas antes da chegada de um furacão.

Em uma das ilhas, Big Pine Key, converso com Chris Berg, da organização Nature Conservancy. Ele se mudou para os Keys ainda criança, vindo da Pensilvânia com os pais em uma Kombi 1973, e não pretende mais sair dali – embora saiba que isso não vai ser possível para seu filho de 6 anos. “Em algum momento, alguém vai dizer: ‘Precisamos de 1 bilhão de dólares para reconstruir a US 1 e, mesmo assim, só vamos ganhar mais 20 anos’. Ou seja, até quando vai valer a pena comprar algum tempo para que tudo continue como está?”

A estrada e o arquipélago terminam em Key West, situada mais próxima de Havana do que de Miami. No prédio da prefeitura, encontramos Don Craig, que trabalhou por mais de duas décadas para a administração local. Nos últimos anos, o órgão gastou milhões de dólares para adquirir mais bombas-d’água, construir um posto de bombeiros em local mais alto e reconstruir trechos do dique que circunda quase toda a ilha. Mas as opções são restritas. Erguer o terreno é algo simplesmente inviável. “Não há nenhuma fonte de entulho próxima”, explica ele. “Estamos a 190 quilômetros das pedreiras mais importantes.”

Basta um aumento de 2 metros no mar para praticamente submergir as ilhas de Florida Keys – e também a Overseas Highway, a via elevada que une o arquipélago ao continente – Foto: George Steinmetz

Quando Craig diz às pessoas que a via de acesso às ilhas do arquipélago, a rodovia US 1, um dia vai estar submersa, há quatro tipos mais comuns de reação. “Alguns se mostram preocupados”, conta ele. “Há os que dizem: ‘Bem, como não vou estar vivo, pouco me importa’. Outros insistem em que não há consenso sobre o que vai ocorrer, então por que discutir isso agora? Por fim, também há os que ficam mudos.”Quanto ao próprio Craig, ele indica o que lhe parece melhor: mudar-se dali.

HÁ ALGO DE SURREAL no ritmo acelerado de construção em uma área que pode acabar submersa até 2100. Durante um voo no início da manhã sobre a região noroeste do condado Broward, avisto uma draga recolhendo entulho a fim de aterrar penínsulas, finas como dedos, em um lago artificial, bem no meio de uma área residencial nos Everglades. Em um passeio de barco pelo Rio Miami, passo por um terreno de 0,5 hectare, à beira do rio, e que foi vendido pelo valor recorde de 125 milhões de dólares na primavera passada. Ali perto, o complexo de edifícios do Brickell City Centre, ocupando uma área de 3,6 hectares, é tão imenso que uma usina de cimento teve de ser erguida no próprio local. Em outro ponto da cidade, planeja-se construir, a um custo de 600 milhões de dólares, um centro de convenções e um hotel com 1 800 quartos.

O maior desafio econômico colocado pelas mudanças climáticas na Flórida talvez seja aquele que as lideranças empresariais preferem não discutir – o temor de que essa crise em câmera lenta acabe por paralisar o crescimento da região. No outono passado, executivos de bancos, de companhias seguradoras e de empreiteiras reuniram-se em Miami em uma conferência, só para convidados, com a Lloyd’s de Londres. Um executivo da seguradora explicou ao grupo que, em algumas áreas vulneráveis, os donos de residências estão pagando prêmios de seguros mais altos que as prestações das hipotecas dos imóveis.

“Há a preocupação de que as taxas de seguro cada vez mais altas não sejam sustentáveis, o que deixaria as pessoas sem outra opção além de sair de Miami ou ficar sem seguro, o que não é possível para quem tem hipoteca”, diz a advogada Kerri Barsh, perita em temas fundiários. “Pode haver um efeito negativo em cascata na economia do sul da Flórida e mais além.” Se os proprietários não puderem assegurar os imóveis, os banqueiros deixariam de oferecer crédito, o que desencadearia uma escassez de recursos, e acabaria levando a uma desvalorização dos imóveis e a uma queda na economia regional.

Uma das maneiras de sustentar o ritmo do crescimento depende de as lideranças locais não se preocuparem com o futuro distante. Assim, os quatro condados meridionais concentram-se em 2060, em vez de 2100. Há certa lógica nisso. A vida útil da maioria dos edifícios é de 50 anos, e Miami, que tem apenas 119 anos, na prática vem se reconstruindo o tempo todo. “Portanto, ainda vamos jogar muito dinheiro no mar antes de nos convencermos de que chegou a hora de mudar para outro lugar”, diz Hal Wanless.

Phil Stoddard, em seu terceiro mandato como administrador de South Miami, é um dos poucos políticos dispostos a falar sobre o que vai ocorrer quando chegar esse momento. Ele me recebe em sua residência, uma casa térrea com piso frio (uma medida básica contra inundações), painéis solares e uma lagoa em que ele e a mulher costumam nadar ao lado da carpa Lola e da perca Ackwards. “Costumo dizer para as pessoas comprarem na alta e venderem na baixa”, diz, fazendo uma pausa para ressaltar o impacto da piada.

Stoddard, que é professor de biologia, chegou às suas próprias conclusões sobre o futuro enquanto fazia rabiscos durante uma longa conferência sobre mudanças climáticas, cujo tema era a gramínea aveia-do-mar, uma espécie local que ajuda a manter as dunas no lugar. “Foi aí que me dei conta: estamos diante de algo desastroso e continuamos a falar de capim?”, lembra-se.

Ele então traça um gráfico com três linhas, que representam a população, o valor dos imóveis e o nível do mar – todas ascendentes. Em seguida, de modo abrupto, há uma queda no aumento da população e da riqueza imobiliária. “Algo vai virar o barco”, diz. “Pode ser um furacão, uma enchente, a falta de água doce. As pessoas vão deixar de vir para cá e buscar outros lugares.”

Na opinião dele, será inevitável uma liquidação das propriedades imobiliárias. Antes disso, Stoddard quer que os eleitores sejam informados. “As pessoas sempre me perguntam: ‘Estou com tantos anos. Tenho tantos dólares investidos em minha casa. O que devo fazer?’ Respondo o seguinte: ‘Se você precisa do dinheiro para se aposentar ou para viver, então vai ter de vender em algum momento. Não precisa ser agora. Mas é melhor não esperar 20 anos’.”

Tempos atrás, Stoddard foi a uma reunião em que Hal Wanless apresentou a sua análise, segundo a qual a aceleração do derretimento dos mantos de gelo vai provocar um aumento mais rápido no nível dos mares – em ritmo mais veloz que as previsões do governo federal. Nessa mesma noite, Stoddard e a filha saíram para passear em Miami Beach. “Ela ficou em silêncio, e aí voltouse para mim: ‘Não vou viver aqui para sempre, não é?’ E eu disse: ‘Pois é, parece que não’. As crianças entendem e aceitam. Não acha que também devemos contar para os pais delas?”

Fonte: viajeaqui.abril.com.br

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Vagner Liberato

Meu nome é Vagner Liberato, sou carioca e vivo no Rio de Janeiro. Formei-me em Administração de Empresas e sou um apaixonado por conteúdo sustentável. Desde 2015 faço o Jornal Sustentabilidade com maior prazer! Para falar comigo, entre em contato pelo email: contato@meioambienterio.com

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